
Por Camylla Herculano
Maracanã. A palavra já é um poema, um grito, um samba-enredo. E eu, coitada, fui parar lá como quem vai à feira e volta com um abacaxi que não pediu, mas que, no fim das contas, virou a estrela da fruteira. Era um Botafogo e Bahia, um clássico de paixões, e eu, na minha mais pura ingenuidade de quem nunca tinha visto um estádio de perto, me enfiei no meio da torcida errada – não que torcesse para um deles, mas queria conhecer o estádio e tinha que escolher um lado. Escolhi um e fui parar no outro lado. Sim, errada. Tipo quando você entra no ônibus e só percebe que está indo para o lado oposto depois de três pontos, mas já está tão longe que o jeito é ir até o final e ver no que dá.
Cheguei lá, meio perdida. O Maraca é um monstro de concreto com uma sinfonia caótica que te engole, te mastiga e te cospe de volta, mas de um jeito bom, sabe? E aí, a primeira coisa que me chamou a atenção, tipo um ET pousando na minha frente, foram os rádios. Radinho de pilha acoplados na orelha, como se estivessem recebendo instruções secretas da NASA. Eu, que mal entendia as regras do impedimento, ficava imaginando o que diabos eles estavam ouvindo. A narração do jogo? Um podcast sobre a vida secreta dos gandulas? Mistério. Um mistério que, para mim, era tão profundo quanto a física quântica.
E no meio daquele turbilhão de gritos guturais, lá estava eu, e outras como eu. Mulheres. Algumas com a camisa do time, pintadas, gritando a plenos pulmões, outras mais discretas, observando, mas com o mesmo brilho nos olhos. A gente ali, ocupando nosso espaço, mostrando que o campo não é só de homem, não. É de quem se permite ser levado pela paixão mesmo que seja só pela simples beleza do espetáculo. É como se a gente dissesse, sem precisar de megafone: “Ei, o futebol também é nosso.”
E eu estava lá, no meio da massa alvinegra, com o coração fazendo um batuque baiano. Sim, eu, a infiltrada acidental, torcendo secretamente pelo Bahia. Era uma esquizofrenia futebolística. Ǫuando o Botafogo atacava, eu fingia um entusiasmo contido, tipo quem ri de piada sem graça do chefe. Por dentro, um sentimento silencioso e desesperado. Ǫuando o Bahia fazia um gol? Um sorriso discreto, um aceno de cabeça quase imperceptível. Eu era a Meryl Streep da dissimulação, a espiã que veio do frio, mas com uma camisa tricolor por baixo. E nesse palco de emoções, chego a uma conclusão, no fundo, o amor pelo futebol é como o amor romântico: irracional, avassalador e, às vezes, nos faz cometer as mais deliciosas loucuras.
Foi uma tarde de epifanias e micro-traições. Entendi que futebol é mais que um jogo, é um estado de espírito, uma religião com seus próprios rituais e dogmas. E eu, uma herege involuntária, aprendi a amar o caos, a paixão e a beleza de estar no lugar errado, torcendo pelo time certo (para mim, claro). No fim, o placar virou detalhe. O que ficou foi a crônica de uma confusão deliciosa, de um rádio que nunca entendi, de mulheres que redefinem o espaço e de um coração que, por umas horas, foi Bahia no Maracanã alvinegro. Porque a vida, meus caros, é feita dessas gafes gloriosas, desses amores secretos e dessas tardes de domingo que viram lendas pessoais. E o Maracanã, ah, o palco perfeito para todas elas.
Texto vencedor do Concurso de Crônicas e Contos do Museu do Futebol 2026 (4º ao 20º lugares)


