Olimpismo negro: uma antologia das resistências ao racismo no esporte, por atletas olímpicos brasileiros
- Black olympism: an anthology of resistance to racism in sport by brazilian olympic athletes
Tese de Neilton Ferreira Júnior apresentada à Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo, como requisito parcial para obtenção do título de Doutor em Ciências sob a orientação da Prof. Dr. Katia Rubio. Para acessar clique aqui.
Sumário
1 - Prólogo: a construção do problema de pesquisa p. 11
2 - Introdução: imaginário esportivo da raça e a urgência das antologias negras p. 37
2.1 - Antologia do protagonismo negro p. 46
3 - Considerações metodológicas p. 48
3.1 - Narrativas biográficas de atletas olímpicos: um encontro com as Epistemologias do Sul p. 48
3.1.1 - Por que a voz do atleta? p. 48
3.1.2 - Do processo de aproximação e construção da narrativa biográfica p. 51
3.1.3 - Para além do jogo: pensando os sujeitos enquanto protagonistas da luta e resistência à opressão — contribuições das Epistemologias do Sul p. 52
3.1.4 - A importância da oralidade segundo as epistemologias do Sul p. 58
3.1.5 - Dimensões da luta segundo as epistemologias do Sul p. 60
3.1.6 - Procedimentos de análise p. 64
4 - Uma antologia do protagonismo negro no esporte: ente pioneirismos e lutas contra o esquecimento p. 65
4.1 - Alfredo Gomes p. 66
4.1.1 - Alfredo Gomes por Antonio Carlos de Paula p. 68
4.1.2 - Nos cafezais de Areias p. 74
4.1.3 - O encontro com o atletismo p. 76
4.1.4 - Os Jogos Regionais Latino-Americanos: mais uma questão colonial p. 79
4.1.5 - O sortilégio da cor e a herança do racismo p. 84
4.1.6 - Alfredo Gomes: também o primeiro afro-brasileiro a vencer a primeira São Silvestre p. 85
4.1.7 - Último treino, último suspiro, primeiros legados p. 89
4.2 - Melânia Luz p. 91
4.2.1 - Pioneirismo importa: contextualizando a obra esportiva de Melânia Luz p. 92
4.2.2 - Poder e contra-poder nas narrativas biográficas de atletas negras p. 97
4.2.5 - O feito olímpico como um protesto negro p. 103
4.2.6 - Como Melânia enfrentou o racismo p. 107
5 - Os rebeldes e seus saberes de resistência ao racismo no e do esporte p. 111
5.1 - Soraia André p. 113
5.1.1 - O amanhecer de uma jovem poeta p. 114
5.1.2 - O encontro com o judô, o choque cultural e o estabelecimento de novos horizontes p. 116
5.1.3 - Entre a “nipo-negritude” e a "afro-niponicidade" p. 120
5.1.4 - Entre a condição Olímpica desumanizada e a reivindicação da condição Humana p. 126
5.1.5 - A luta pra além dos tatames e seus significados p. 131
5.1.6 - Serei Soraia e os novos sentidos da experiência esportiva p. 135
5.2 - Diogo Silva p. 138
5.2.1 - Escapando à sociabilidade colonial: o encontro com o taekwondo p. 142
5.2.2 - Punho enriste! Raizes, significados e desdobramentos um protesto negro no esporte p. 148
5.2.3 - Um "sindicalista" Olímpico-abolicionista p. 159
6 - Aproximações teóricas: porque lutam os atletas negros" p. 166
6.1 - Diáspora negra: inscrição e resistência na modernidade p. 166
6.1.1 - Anterioridades e implicações político-epistêmicas da diáspora negra p. 168
6.1.2 - A diáspora negra como oposição p. 172
6.1.3 - O medo branco e a República como trama anti-negra p. 176
6.1.4 - Diáspora negra e resistência no mundo pós-colonial p. 181
6.1.5 Imaginário negro do negro p. 185
6.2 A diáspora negra em Stuart Hall p. 189
6.2.1 Da reorientação diaspórica do mundo p. 193
6.2.3 Políticas de resistência negra no mundo dos brancos p. 198
6.2.4 "Iluminismo negro" p. 204
6.2.5 Dupla consciência e vontade de mundo p. 213
6.3 Crioulização da cultura p. 218
6.3.1 Por uma poética da diversidade p. 225
6.3.2 Centralidade da cultura, (des)centralidade do poder p. 232
6.4 O protagonismo negro na cultura p. 240
6.4.1 Agência negra contra a política de morte p. 240
6.4.2 Resistências demasiadamente humanos p. 245
6.4.3 Desvelando o protagonismo afro-brasileiro p. 253
7. Domínios da "raça" no Esporte p. 266
7.1 De que esporte falamos? P. 266
7.1.1 "Raça", racismo, discriminação racial e Olimpismo p. 271
7.1.2 Da exclusão deliberada do negro no e pelo esporte p. 284
7.1.3 Da integração subordinada do negro no esporte p. 292
7.1.4 Esporte, fascínio racial e humilhação pública do negro p. 298
7.1.5 Das expressões de resistência ao racismo no esporte p. 306
8. Considerações finais: Olimpismo Negro p. 311
9. Referências Bibliográficas p. 320
Textos
Esta pesquisa tem por objetivo identificar e oferecer uma interpretação às formas que a luta e a resistência ao racismo assumem no esporte brasileiro, tendo como referencial elementar as narrativas e materiais biográficos de atletas olímpicos negros. Em destaque, estão as trajetórias esportivas de Alfredo Gomes, Melânia Luz, Soraia André e Diogo Silva, concebidas aqui como obras biográficas, guias da análise dos desdobramentos da presença negra em um sistema esportivo historicamente marcado por contradições fundamentais, dentre as quais se destaca o racismo. O aporte teórico-metodológico que orienta esta interpretação inscreve-se no campo dos Estudos Pós-coloniais e das Epistemologias do Sul. Abordagens reconhecidas por privilegiar as vozes, saberes e conhecimentos produzidos por grupos sociais cuja inscrição na modernidade tem se configurado mediante estratégias de sobrevivência, rebeldia, protesto, luta e resistência — categorias fundamentais ao próprio alargamento e reconfiguração dessa modernidade. Tomadas em conjunto, essas biografias negras falam de experiências sociais que, embora particulares ao campo esportivo, carregam características universais da diáspora negra, responsável pelo redimensionamento do referido campo. Esse arranjo possibilitou a construção do que aqui se denominou antologia das resistências negras ao racismo no esporte brasileiro, mediante o qual se sustenta três teses fundamentais, a saber: (i) originalmente configurado e instrumentalizado para servir aos interesses de uma rbwqraça e projeto societário especifico, o esporte moderno impõe limites e expedientes adicionais aos sujeitos racializados como negros. Condição que os obriga construir estratégias de resistência e protesto contra arbitrariedades, sanções e políticas de esquecimento. Essa obrigatoriedade de agência política conecta esses atletas a uni plano mais amplo da luta por emancipação na modernidade, o qual se convencionou chamar diáspora negra. Ao designar os movimentos do povo negro desenraizado e disperso, essa categoria histórica e teórico-politica oferece elementos à sustentação, como segunda tese, da (h) existência de um Olimpismo Negro, que em outras palavras diz respeito às formas criativas de assimilação e experiência esportiva que não só submetem os postulados civilizatórios do esporte moderno a um rigoroso exame de realidade, como permitem observar a passagem da celebração de valores na forma abstrata para a sua realização prática. A terceira e última tese parte da noção de que (iii) a materialização da vocação humanista do esporte depende necessariamente da recuperação da fortuna de imagens da desobediência e do protesto, abundantemente presentes nas obras biográficas dos seus protagonistas.
ABSTRACT: This research aims to identify and offer an interpretation of forms the struggle and resistance to racism take in Brazilian sport, having as an elementary reference the narratives and biographical materials of black Olympic athletes. Highlighted are the sports trajectories of Alfredo Gomes, Melania Luz, Soraia Andre and Diogo Silva, conceived here as biographical works, guides to the analysis of the development of the black presence in a sports system historically marked by fundamental contradictions, among which the racism. The theoretical-methodological contribution that guides this interpretation is inscribed in the field of Postcolonial Studies and Southern Epistemologies. Approaches recognized for privileging the voices, wisdom and knowledge produced by social groups whose inscription in modernity has been configured through survival strategies, rebellion, protest, struggle and resistance —fundamental categories to the expansion and reconfiguration of this modern age. Taken together, these black biographies speak of social experiences that, although specific to the sports field, carry universal characteristics of the black diaspora, responsible for the redimensioning of that field. This framework enabled the construction of what is here called an anthology of black resistance to racism in Brazilian sport. Arrangement by which three fundamental thesis are supported, namely. (i) Originally configured and instrumentalized to serve the interests of a specific class/race and societal project, modern sport imposes additional limits and expedients on subjects racialind as black. A condition that forces them to build resistance and protest strategies against arbitrariness, sanctions and forgetting policies. This obligation of political agency connects these athletes to a broader plan of the struggle for emancipation in modernity, which is conventionally called the black diaspora. This theoretical-historical category, which designates the movements of uprooted and dispersed black people, offers elements to support, as a second thesis, (ii) the existence of a Black Olympism, that is, of creative forms of assimilation and sporting experience that not only submit the civilizing postulates of modern sport to a rigorous examination of reality, as it allows the passage from the celebration of values in abstract form to their celebration in practical form. The third and last thesis is based on the notion that (iii) every materialization of the humanist vocation of sport necessarily involves the recovery of the wealth of images of disobedience and protest present in the biographical works of its protagonists.



