A mala de Arthur Friedenreich e o mito em torno de “El Tigre”

Mala que pertenceu a Arthur Friedenreich, utilizada por ele na excursão à Europa em 1925. Item doado ao Club Athletico Paulistano por Oscar Friedenreich Neto, em 1973 | Foto Fábio Figueiredo, 2016.

Mala de madeira revestida externamente em couro marrom, medindo 70 cm de largura, 53 cm de altura e 24 cm de profundidade. Em sua exterioridade, apresenta quatro adesivos fixados no prolongamento da peça, dois nas laterais, ambos do Palace Hotel de Maringá (PR), e dois na parte superior, sendo um do Phoenix Hotel, de Buenos Aires, e outro ilegível. Possui detalhes metálicos localizados na parte superior, nas laterais e nas quinas. Tanto esses detalhes quanto sua alça, composta de couro e metal, apresentam sinais de oxidação. Seu interior é revestido por tecido de algodão na cor bege e conta com duas divisórias de madeira [1].
Essa descrição refere-se ao Objeto da Vez de dezembro: a mala pertencente a Arthur Friedenreich, usada por ele na excursão que o Club Athletico Paulistano empreendeu à Europa no ano de 1925. O item foi doado à agremiação alvirrubra em 1973 por Oscar Friedenreich Neto, filho do jogador. A peça também integrará a mostra temporária acerca da viagem de 1925, que será inaugurada na sala Zona Mista do Museu do Futebol, em janeiro de 2026.

Equipe do C.A. Paulistano posa para foto no Estádio de Buffalo, Paris, França, 22 mar. 1925 | Acervo Família Junqueira.

Essa mala, portanto, é uma das peças que compõem a cultura material relacionada às memórias em torno da excursão do C.A. Paulistano. A celebrada viagem, que marcou a primeira ida de uma equipe brasileira de futebol ao continente europeu, começou na Estação da Luz em 10 de fevereiro. A delegação seguiu de trem até Santos e, de lá, embarcou rumo ao exterior. O trajeto marítimo incluiu passagens pelo Rio de Janeiro, Salvador e Recife, além dos portos estrangeiros de Las Palmas, Lisboa e Vigo, até chegar a Cherbourg, na França, em 28 do mesmo mês. A partir dali, o itinerário de jogos se estendeu por três países, França, Suíça e Portugal. Ao todo, foram 93 dias de jornada, sendo 40 deles passados no mar, em um percurso marcado por uma série de intempéries.
Contudo, é importante mencionar que o CAP não estava sozinho no Velho Continente. Concomitantemente, os uruguaios do Club Nacional de Football e os argentinos do Club Atlético Boca Juniors também realizaram excursões pela região [2]. E os sul-americanos deixaram uma ótima impressão! O Nacional, em uma longuíssima jornada de 38 jogos, venceu 26, empatou cinco e perdeu sete. O Boca, por sua vez, disputou 19 partidas, das quais venceu 15, empatou uma e perdeu três. Os brasileiros também se destacaram: foram nove vitórias em dez jogos. Como destaca Hollanda (2013), essa excursão tornou-se um dos pilares da mitologia nacional acerca do estilo brasileiro de se praticar futebol [3]. Logo após o primeiro jogo dos alvirrubros em Paris (uma vitória por 7 a 2 sobre o selecionado francês), o Le Journal os apelidou de “les rois du football”.
Um dos principais responsáveis pela consolidação dessa imagem foi, sem dúvida, o artilheiro da excursão e dono do objeto aqui destacado: Arthur Friedenreich (1892-1969), “El Tigre”. Nascido em São Paulo, filho de um comerciante de ascendência alemã e de uma professora negra, Friedenreich é considerado um dos primeiros craques do futebol brasileiro e tem sua trajetória envolta em inúmeros mitos. Não por acaso, é frequentemente comparado a Pelé, consagrado como “o rei do futebol”. Neste texto, exploraremos algumas dessas narrativas que marcaram sua carreira.

Arthur Friedenreich e Durval Junqueira em ataque contra a equipe do Stade Français C.A.S.G. Paris, França, 22 mar. 1925 | Acervo Família Junqueira.

Ainda na infância, seus biógrafos ressaltam que o jogador já demonstrava tamanha habilidade corporal que teria “driblado” a morte:

Vindo não sei de onde, um carro fúnebre quase o atropelou. Foi por muito pouco, mas pode-se dizer que nesse momento nascia a finta de corpo que ele tanto usou nos campos. (Costa, 1999, p. 12)

Certa vez, brincando de bola na rua da Consolação, Arthur se distraiu e quase foi atropelado por um carro fúnebre, episódio que seria lembrado posteriormente como a primeira finta de corpo do futuro craque. (Duarte, 2012, p. 23)

Já como atleta, outro mito diz respeito ao número de gols marcados pelo centroavante. Há quem afirme que Fried teria superado Pelé, ultrapassando a marca dos mil gols. No levantamento de Duarte (2012, p. 250), contudo, o autor chegou a números mais modestos: 595 gols em 605 jogos, ainda assim um desempenho extraordinário, com média de 0,98 gol por partida. Apenas na excursão de 1925, marcou 11 dos 30 gols anotados pelo CAP, encerrando a viagem como artilheiro da equipe.
Ainda sobre esse tema, há quem afirme (incluindo o próprio Friedenreich) que ele nunca perdeu um pênalti. De acordo com Costa (1999, p. 41), o jogador era um dos principais divulgadores dessa narrativa, repetindo incansavelmente que jamais havia desperdiçado uma cobrança. Essa imagem é tão poderosa que surgiu até a lenda de que um de seus pênaltis teria sido capaz de vitimar um goleiro.
Segundo se conta, a partida ocorreu em 1935, entre Grêmio F.B.P.A. e Santos F.C., no Rio Grande do Sul. Naquele período, Fried atuava pelo time paulista, que estava em excursão pelo Estado. A partida foi movimentada: cinco gols no total, com vitória gremista por 3 a 2, a primeira de um clube gaúcho sobre uma equipe de São Paulo. Mas o ponto que nos interessa aqui é o pênalti. Como relatado na revista História Ilustrada do Grêmio (1983, p. 22):

Dario comete falta em Mário Seixas. O juiz, para espanto de todos, fraciona o jogo apitando pênalti. Surgem protestos de todos os lados. O árbitro (Carlos Ribeiro), deixa o campo. Pery Azambuja é convidado para apitar os dois minutos restantes do primeiro tempo. A pelota é colocada na marca fatal. Friedenreich, destacado para bater, o faz com maestria, assinalando o primeiro tento para os paulistas.

Desse lance narrado acima nasceu o mito de que a batida foi tão forte que, ao atingir o peito do goleiro gremista Eurico Lara, o atacante o teria vitimado em campo [4]. Porém, o que há de fato e de invenção nessa história? Sabe-se que o jogo realmente aconteceu, que Fried cobrou o pênalti e marcou sobre Eurico Lara, e que o goleiro morreu em 1935. No entanto, vale frisar que sua morte não teve qualquer relação com a cobrança de Friedenreich. A partida entre Grêmio e Santos ocorreu em 19 de maio de 1935, enquanto Lara faleceu apenas em 6 de novembro daquele ano, em decorrência dos sérios problemas cardíacos que enfrentava [5].
Por fim, mais do que os números, talvez o principal elemento narrativo associado a “El Tigre” seja o seu estilo de jogo, aspecto que contribuiu para alimentar uma das grandes mitologias do futebol nacional: a ideia de que existe um modo autenticamente brasileiro de tratar a bola. Como aponta Hollanda (2013), parte da relação entre a “brasilidade esportiva” e a identidade nacional, ainda que atrelada a outros episódios, encontra um de seus fundamentos na excursão do Paulistano à Europa. Nesse processo, a imprensa estrangeira desempenhou papel decisivo: foi ela quem consagrou os jogadores do alvirrubro como “reis do futebol”. Friedenreich, figura central da equipe, foi aquele que arrebatou o público europeu. Já em 1925, era exaltado como “o melhor centro-avante que jamais foi visto” [6]. (A Gazeta, 8 maio 1925, p. 3).
Ademais, vale destacar que essa breve reflexão se refere a uma peça “viva”, que carrega significados atribuídos por nós em nosso tempo. Nesse sentido, não podemos esquecer que, embora seja possível conhecer uma fração de sua história a partir da interpretação de seus detalhes, determinados aspectos dessa trajetória “permanecerão parte de uma história privada sendo, para o resto do mundo, secretos”. (Museu da Imigração, 2019).

Letícia Marcolan
Pesquisadora plena do Centro de Referência do Futebol Brasileiro

NOTA

[1] Agradeço especialmente a Ana Paula Fernandes, responsável pelo Centro Pró-Memória do Club Athletico Paulistano, pelas informações fornecidas e pelos comentários que foram essenciais para a elaboração deste texto.

[2] Registros das três excursões estão disponíveis na exposição ¡Cancha Brava! Futebol sudamericano en disputa, em cartaz no Museu do Futebol até 5 de abril de 2026.

[3] Entre outros episódios, evidentemente. Consulte: Hollanda (2013).

[4] Há ainda uma segunda versão desse mito segundo a qual Eurico Lara teria morrido no “Grenal Farroupilha”, após defender um pênalti cobrado por seu irmão.

[5] Sua dedicação em campo foi tamanha que seu nome acabou eternizado no hino do clube: “Lara o craque imortal | Soube seu nome elevar | Hoje com o mesmo ideal | Nós saberemos te honrar”.  

[6] A frase teria sido extraída de um jornal suíço, de acordo com matéria divulgada por A Gazeta.

Referência bibliográfica

BORDIN, Raimundo. História Ilustrada do Grêmio, Porto Alegre, v. 2, 1983.

COSTA, Alexandre. O Tigre do Futebol: uma viagem nos tempos de Arthur Friedenreich. São Paulo, DBA, 1999.

DUARTE, Luiz Carlos. Friedenreich: a saga de um craque nos primeiros tempos do futebol brasileiro. São Paulo: Bella Editora, 2012.

HOLLANDA, Bernardo Borges Buarque de. A sagração dos “reis do futebol”. Ludopédio, São Paulo, v. 47, n. 3, 2013.

VITRINE do acervo: uma mala. Blog [do] Museu da Imigração. São Paulo, 01 mar. 2019.

O PAULISTANO na Suissa. A Gazeta, São Paulo, 8 maio 1925, p. 3.

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