Partido de Mujeres

Registro audiovisual em preto e branco com duração de 1 minuto e 34 segundos que apresenta, em diferentes tipos de planos e ângulos, imagens em movimento do interior de um estádio de futebol, onde duas equipes de futebol feminino entram em campo uniformizadas para uma partida. As cenas de jogo aparecem intercaladas com imagens em movimento de detalhes do estádio e das arquibancadas, onde se vê torcedores de diferentes gêneros e faixas etárias. Como identifica o locutor, trata-se de um registro do futebol costarriquenho entre Club Sport La Libertad e Deportivo Evita Perón, dedicado ao diplomata argentino então presente no estádio.

Cena do filme "Partido de Mujeres" [1950], exibido na exposição temporária ¡Cancha Brava! Futebol sudamericano en disputa, 2025-2026 | Archivo de la Imagen del Centro Costarricense de Cine y Audiovisual.

Intitulado Partido de Mujeres (Partida de Mulheres), o registro foi produzido pelo fotógrafo costarriquenho Álvaro Chavarría, em película de acetato, em 1950 [1]. Sua digitalização foi realizada pela equipe do Archivo de la Imagen, do Centro Costarricense de Cinema e Audiovisual (CCCA), instituição do Ministério da Cultura e Juventude da Costa Rica que tem como objetivo impulsionar o desenvolvimento do cinema e audiovisual no país.

O material em questão compõe a narrativa da exposição temporária ¡Cancha Brava! Futebol sudamericano en disputa, em cartaz no Museu do Futebol de outubro de 2025 a abril de 2026.

Segundo a tradutora Bérengère Viennot, uma das características dos governos totalitários é o controle e a manipulação das narrativas sobre o passado. Através do falseamento ou da exclusão de fatos e depoimentos, versões oficiais da História são criadas a fim de justificar as condições do presente. Aquele famoso “desde sempre é assim”. Neste âmbito, o trabalho de museólogas e historiadoras é essencial para desmistificar imagens e concepções enrijecidas sobre o mundo e as formas de viver. De modo que disputar o passado não é um ato localizado no pretérito, mas, sim, um exercício imaginativo, ancorado no presente, que cria novos repertórios e representações para o futuro.

No âmbito futebolístico, por muitas décadas o futebol de mulheres foi fruto de preconceito e difamação. No Brasil, por exemplo, sua prática foi proibida por décadas. Tanto autoridades governamentais quanto a imprensa disseminavam a falsa ideia de que a bola e os esportes de contato seriam prejudiciais à saúde reprodutiva feminina. Ainda criança, na década de 1990, lembro de frequentemente escutar frases como: “o futebol deixa as mulheres feias”; “a bola machuca o útero”; “olha, como essas jogadoras parecem homens”. Tais afirmações, de caráter explicitamente lesbofóbico e misógino, infelizmente, reverberam ainda hoje, impondo padrões opressivos de feminilidade, doçura e falta de força.

Nesta seara, o vídeo Partido de Mujeres é uma peça de inestimável contribuição para a criação de novos imaginários. Estamos em San José, em pleno ano de 1950, vinte e duas mulheres entram em campo para disputar um amistoso.

Ao invés de um “dia excepcional”, este registro compõe um momento histórico de florescimento e difusão do futebol de mulheres na Costa Rica, com a criação de clubes como o Deportivo Femenino Costa Rica F.C., o Juventud Femenino Guadalupano, e os já citados Deportivo Evita Perón e Club Sport La Libertad. Vale destacar que os dois últimos se enfrentaram diversas vezes (em agosto e outubro de 1950 e, na sequência, em março de 1951). Durante este período, também há registro de mulheres atuando como árbitras e dirigentes; como era o caso de Teresita Muñoz Rojas e Ligia Blanco Castro, presidente e vice-presidente, respectivamente, do Club Sport La Libertad em 1950.

Jogadoras do Deportivo Evita Perón, [1950] | Archivo de la Imagen del Centro Costarricense de Cine y Audiovisual.
Jogadoras do Club Sport La Libertad, [1950] | Archivo de la Imagen del Centro Costarricense de Cine y Audiovisual.

Além disso, a Costa Rica não só fomentou o futebol de mulheres dentro de seu território como promoveu turnês internacionais, com amistosos e jogos de exibições, por Panamá, Honduras, El Salvador, Guatemala, entre outros países. Estas viagens representaram um grande avanço na autonomia das mulheres e na construção de uma sociedade mais igualitária em termos de gênero. Basta lembrar que, concomitantemente, até 1962, as brasileiras precisavam da autorização dos maridos para se ausentar de casa. Além disso, essas caravanas incentivaram a criação de equipes e ligas femininas em outros países da América Central.

Este ímpeto insurgente, contudo, nem sempre foi bem recebido. Na Colômbia, as forças católicas conservadoras da Liga de la Decencia repudiaram a turnê costarriquenha, tentando que as mulheres praticassem essa “arte imoral” da bola. Também na própria Costa Rica, as esportistas encontraram resistência e condições precárias de trabalho. A jogadora Ligia Torres, por exemplo, viajava todos os fins de semana 2h30 horas a cavalo e mais 8h de ônibus para jogar, tendo a carreira interrompida por um atraso no deslocamento, às vésperas de uma viagem. Ao comentar sobre este período, o escritor e jornalista José Antonio Pastor Pacheco chama atenção para a dificuldade de encontrar registros e documentos fidedignos. Assim, apesar do pioneirismo, a história destas mulheres ainda continua bastante invisibilizada e inacessível, convocando-nos a escavar as entrelinhas da memória oficial.

Por fim, vale frisar que trazer esse objeto para a exposição temporária ¡Cancha Brava! foi uma espécie de licença poética, uma vez que a mostra optou por concentrar-se na América do Sul, em geral, e nos dez países que compõem a CONMEBOL, em específico. Isto revela certa dificuldade em apreender o que é essa tal América Latina: deveríamos nos ater ao idioma, concentrando-nos no Brasil e nos países hispanohablantes? Ou pensar em termos territoriais? Como abordar a especificidade e as confluências da América Central e das ilhas caribenhas? Quais paralelos são possíveis entre a CONMEBOL e a CONCACAF?

Parte destas perguntas foram respondidas ao longo da mostra; parte ainda se apresenta como indagação para quem a visita. “Partido de Mujeres”, no entanto, deixa uma pista: assim como as mulheres costarriquenhas prestavam tributo a uma liderança argentina, traçando pontes de irmandade, entendemos as redes e fluxos latinoamericanos não como algo rígido. Afinal, somos países com línguas diversas e particularidades históricas, mas que compartilham um passado comum de violência e, principalmente, resistência contra-colonial.

 

Luiza Romão
Atriz, poeta e slammer, é uma das curadoras da exposição temporária ¡Cancha Brava! Futebol sudamericano en disputa

NOTA

[1]. Na abertura do filme consta como o ano do jogo em 1949, e o Deportivo Evita Perón é identificado como sendo um time argentino. Na verdade o jogo foi realizado em 1950 e os dois times eram da Costa Rica.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

BONFIM, Aira F. Futebol feminino no Brasil: entre festas, circos e subúrbios, uma história social (1915-1941). São Paulo: 2023.

ELSEY, Brenda J.; NADEL, Joshua H. Futbolera: historia de la mujer y el deporte en América Latina. Santiago: Ediciones UC, 2021.

GAITÁN, Chester. El fútbol femenino en Costa Rica (1924-2015). In: Lecturas: Educación Física y Deportes, Revista Digital. Buenos Aires, Año 21, n. 221, oct. 2016. Disponível em:

BIBLIOTECA NACIONAL MIGUEL OBREGÓN LIZANO. Páginas Vivas, episodio 13 – Historia oficial de la Liga de Fútbol Femenino de Costa Rica. Youtube, 2022. 34 min.VIENNOT, Bérengère. A língua de Trump. Belo Horizonte: Editora Âyiné, 2020.

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