Perigo de Gol, por Mulambö

A série Perigo de Gol (2015), objeto da vez de abril, é composta por seis colagens digitais em preto e branco, dispostas em duas colunas, com três imagens cada. Todas possuem as mesmas dimensões: 42×29,7 cm. Nelas, de modo geral, estão contrapostos lances do futebol a imagens de repressão. A série é de autoria do artista visual contemporâneo João Mulambö [1] e foi apresentada ao público na exposição temporária ¡Cancha Brava! Futebol Sudamericano en Disputa, em cartaz no Museu do Futebol entre outubro de 2025 e abril de 2026.

Perigo de Gol no Museu do Futebol | Foto: Nilton Fukuda.

Neste texto, nossa intenção é nos ater à colagem que tem Pelé, em 1958, como personagem principal. Esta apresenta, ao centro, o craque brasileiro ajoelhado e com uma expressão emocionada. Ele veste o uniforme da Seleção que, embora a imagem esteja em preto e branco, sabemos ser composto por camisa azul e calção branco, os meiões também são brancos, com listras em verde e amarelo, e ele calça chuteiras. Ao redor do futebolista, aparecem quatro policiais, todos com capacetes e trajando fardas características do período da ditadura empresarial-militar brasileira, três deles seguram cassetetes, e seu gestual é agressivo em direção ao jogador.

Detalhe da série Perigo de Gol, em colagem que tem Pelé, em 1958, como personagem. Imagem gentilmente cedida pelo artista.

Originalmente, esses dois registros capturaram momentos distintos da história nacional. O primeiro é uma fotografia de dois futebolistas brasileiros, Pelé e Garrincha, comemorando o apito final da partida contra a Seleção Sueca, que sacramentou a conquista do primeiro título mundial do Brasil em Copas do Mundo, no ano de 1958. No Estádio Rasunda, a Seleção Brasileira venceu a equipe da casa por 5×2, e o jovem Pelé marcou dois gols.

A segunda fotografia, por sua vez, data de dez anos depois. Trata-se de um registro da violência policial durante uma manifestação de estudantes, em 14 de novembro de 1968 [2]. Apesar da crescente repressão aos movimentos civis, o ano de 1968 foi um período em que o movimento estudantil brasileiro se consolidou como um dos principais focos de resistência ao regime imposto quatro anos antes. Mais tarde, em 13 de dezembro daquele mesmo ano, foi promulgado o Ato Institucional nº 5, considerado um dos instrumentos legais mais repressivos da ditadura instaurada em 1964.

Pelé e Garrincha comemoram a conquista do Mundial, 29 jun. 1958. | Dedoc Abril | Placar | Direitos Reservados.
Policiais reprimem manifestação estudantil, 14 nov. 1968 | Acervo Estadão | Direitos Reservados.

Assim sendo, na colagem de Mulambö, euforia e violência coexistem no mesmo espaço, deslocando os sentidos iniciais das fotografias que a compõem. Na captura protagonizada por Pelé, então com 17 anos, o choro eufórico do atleta é ressignificado em um pranto de dor pelo golpe que lhe é infligido. Paralelamente, a agressão policial é redirecionada. No lugar dos estudantes da imagem primária, o artista insere a figura do “Rei do Futebol”, tensionando os limites entre a celebração no gramado e a brutalidade extracampo.

Essa dualidade, vale destacar, marcou a conquista do tricampeonato mundial alcançado 12 anos depois do registro que compõe a colagem do artista. A vitória no México em 1970, que alçou Pelé ao posto de “Rei” e aquele time ao de “melhor da história” (no mínimo, um dos melhores), coexistiu com a violenta ditadura brasileira. Recorrendo à linguagem da fotografia, objeto deste texto, é possível evocar a emblemática captura em que o ditador Emílio Garrastazu Médici aparece ao lado de Pelé (e outros jogadores), enquanto este ergue a taça Jules Rimet, emulando o gesto de Bellini em 1958. Nessa fotografia, dispõem-se, frente a frente, os símbolos da euforia coletiva (os jogadores) e a figura máxima do regime (Médici).

Quanto à produção do artista, de modo amplo, é bom frisar que sua relação com o futebol extrapola o viés político. Em vez de uma manifestação estanque, o futebol é para Mulambö uma manifestação plural e em disputa, o que justifica as variadas formas de representação que ele assume em suas obras.

Podemos afirmar, então, que o futebol aparece antes de tudo como parte de seu cotidiano. Flamenguista, João tinha o sonho de se tornar jogador, tal qual Adriano, Gabriel Barbosa e Vinícius Júnior, ídolos que figuram como protagonistas em suas obras. Um trabalho que ilustrou esse desejo é Seleção (2018), construído a partir das memórias do time de futsal em que jogou quando criança. Cabe frisar, ainda, que seu nome faz referência a um termo frequentemente associado à torcida do C.R. do Flamengo: os “mulambos”. De cunho racista e classista, o termo foi apropriado e ressignificado tanto pela arquibancada rubro-negra quanto por João.

Além disso, uma diversidade de outros trabalhos por ele concebidos representaram a prática. Entre eles, Marca Multinacional (2020); a ilustração desenvolvida para o livro Maracanã: quando a cidade era terreiro (2021), de Luiz Antonio Simas; o quadro Estrelas Negras (2022); a instalação O penhor dessa igualdade (2022); a série sobre Vinícius Júnior (2023), exposta em Barcelona sob o título de Punta de Lanza; e, mais recentemente, produções que apontam para uma fase mais voltada à fabulação e à imaginação, como em Fantásticos (2025) [3].

Marca Multinacional é uma colagem digital que questiona a reificação do corpo negro. Imagem gentilmente cedida pelo artista.

Fantásticos foi apresentado ao público do Museu do Futebol durante a aula aberta ministrada por João Mulambö, em 20 jan. 2026. Foto: Rafael Adorján.

Por fim, é importante ressaltar que Mulambö é um artista contemporâneo que, como não poderia deixar de ser, dialoga com outras produções. Na mostra ¡Cancha Brava!, destacam-se os nomes de Jaime Lauriano e do coletivo Frente 3 de Fevereiro, que também  articulam futebol e arte em suas trajetórias e integram a exposição do Museu com as obras Nunca Foi Sorte #2 (2023) e Bandeiras (2025), respectivamente.

É evidente que outros artistas, em diferentes épocas, representaram o futebol. Cronologicamente, podemos citar desde os embates literários entre Coelho Neto e Lima Barreto até as pinturas de Francisco Rebolo. Destacam-se ainda a canção “Conversa de Botequim” (1935), de Noel Rosa; a tela Futebol (1935), de Cândido Portinari; as crônicas de Nelson Rodrigues e a poesia de Carlos Drummond de Andrade. O tema está também nas marchinhas de Ary Barroso, Lamartine Babo e Wilson Batista, e nas artes visuais com Antonio Gomide, em Futebol no Morro (1959), e Djanira da Motta e Silva, em Futebol Fla-Flu (1975). Posteriormente, figuram trabalhos de Rubens Gerchman, José Aguilar, Nelson Leirner e Cláudio Tozzi, seguidos, mais tarde, pelas produções de Regina Silveira, Antonio Dias, Leda Catunda e Cildo Meirelles.

Em conclusão, entendemos que a representação do futebol nas artes (especialmente na obra de Mulambö) nos convida a interpretar esse esporte como um objeto em disputa. No futebol, a expressão “perigo de gol”, que nomeia a série, refere-se a um lance de pressão ofensiva, um ataque que exige da defesa adversária máxima atenção. Em sua arte, Mulambö leva esse significado ao limite nas relações que estabelece: de um lado, a plasticidade dos gols e dos dribles, bem como a alegria da comemoração; de outro, a violência e a repressão. Embora pareçam temas irreconciliáveis, o artista demonstra que ambos atravessam a história do futebol e a do próprio país.

Leticia Marcolan
Pesquisadora do Centro de Referência do Futebol Brasileiro, do Museu do Futebol

Emerson Prata
Assistente de Formação e Conteúdo do Núcleo Educativo, do Museu do Futebol

NOTA

[1] João nasceu na cidade litorânea de Saquarema (RJ), onde ainda vive, em 1995. A produção do artista é fruto de sua vivência cotidiana, tanto nos materiais que utiliza quanto nas temáticas que representa. Nome consolidado na cena contemporânea, participou de exposições coletivas e individuais em instituições reconhecidas. Além disso, suas obras fazem parte de acervos de instituições como Inhotim, Pinacoteca de São Paulo, Museu de Arte do Rio e MAC Niterói. Para mais informações, consulte o site do artista: Mulambö. Acesso em: 20 mar. 2026.

[2] O ano de 1968 foi marcado por movimentos de resistência em todo o mundo, tais como o Maio de 1968 na França, os protestos contra a Guerra do Vietnã nos EUA e a Primavera de Praga na antiga Tchecoslováquia, entre outros. No Brasil, não foi diferente.

[3] Boa parte dos trabalhos mencionados está disponível no site do artista.

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