
Camisa regata com listras verticais nas cores vermelho, preto e branco, com medidas de 75 cm de altura, 59 cm de largura e no interior da gola possui uma etiqueta que descreve o tamanho do item “XXL”. Do lado direito da peça, destaca-se o símbolo colorido Mapuche [1], onde se lê “Garra Blanca Resistência Mapuche”. Do lado esquerdo, observa-se a insígnia do Club Social y Deportivo Colo-Colo, e acima do distintivo, um travessão na cor preta e a representação de uma estrela dourada. No centro da regata, está escrito “Raza Brava” (“Raça Corajosa”, em tradução livre) , entre as palavras apresenta novamente a representação do símbolo Mapuche em cor preta. Já no verso da peça está escrito “Nací para amarte, vivo para alentarte ” (“Nasci para te amar, vivo para te incentivar”, em tradução livre). Abaixo, lê-se a data [2]. É interessante também destacar as marcas de uso. Portanto, na manga esquerda, observam-se alguns fios puxados. No verso da camisa, na barra inferior, notam-se outras linhas distendidas e, no centro do verso da regata, percebem-se fibras do tecido destacadas, devido provavelmente à fricção por uso de mochila nas costas por parte do detentor da peça.
Assim, abrimos mais um texto sobre o objeto da vez, nesta ocasião com a regata da barra brava [3] Garra Blanca, torcida do CSD Colo-Colo. Trata-se de um clube chileno conhecido como o El Cacique (“o cacique”, que significa líder de uma comunidade indígena, em tradução livre) e fica localizado em Santiago, o qual ainda possui na atualidade a maior concentração de torcedores do país. A camisa está em exibição desde outubro de 2025 na exposição temporária do Museu do Futebol intitulada “¡Cancha Brava! Futebol sudamericano en disputa” e pertence a um dos curadores da mostra, Matias Pinto.
Garra Blanca é uma emblemática torcida do CSD Colo-Colo que foi institucionalizada em 1986 e, progressivamente, passou a atrair jovens oriundos das periferias urbanas chilenas, sujeitos que vivenciavam cotidianamente a exclusão social, política e econômica do período da ditadura no país, como destaca o cineasta Hernán Caffiero, produtor de um documentário sobre essa barra brava intitulado Raza Brava [4]. Os barristas, como são conhecidos, apresentam um modo específico de torcer no contexto sul-americano, marcado por práticas corporais e sonoras próprias. Através do ritmo de bumbos de murga, o alento (incentivo, em tradução livre) não deve parar durante os 90 minutos de partida, sustentado visualmente por meio de faixas de tecido de malha que descem pelas arquibancadas sendo agitadas constantemente ao som de cânticos de incentivo ao time.

Contudo, o destaque da regata não ocorre somente por ser uma peça confeccionada pelo grupo Garra Blanca. As camisas de torcidas ocupam um lugar singular na cultura material do futebol. Diferentemente das camisas oficiais produzidas pelos clubes, licenciadas por meio de grandes marcas esportivas, elas emergem de circuitos paralelos de produção, circulação e uso, vinculadas às experiências coletivas e às disputas simbólicas que atravessam o ato de torcer. São indumentárias que performam pertencimentos, que podem demarcar posições políticas e circunscrevem identidades no espaço público.
Nesse sentido, a apropriação do emblema Mapuche pela Garra Blanca em uma indumentária produzida pelo próprio coletivo torcedor configura uma atitude pública de comprometimento político. Ao manifestar a inscrição “Resistencia Mapuche” (“Resistência Mapuche”, em tradução livre), a regata materializa o apoio dos torcedores à luta histórica dos povos originários no Chile, sistematicamente marginalizados pelo Estado. Essa aliança simbólica tornou-se ainda mais visível a partir de outubro de 2019, durante o chamado estallido social [5], quando uma série de protestos massivos tomou as ruas do país, impulsionados inicialmente pela insatisfação estudantil com o aumento das tarifas do transporte público, mas rapidamente ampliados para uma crítica geral ao governo e às desigualdades sociais do modelo neoliberal chileno.
Nesse cenário, as torcidas organizadas assumiram papel relevante nas mobilizações, de maneira inédita, grupos historicamente rivais, como a Garra Blanca, do CSD Colo-Colo, e Los de Abajo, do Club Universidad de Chile, suspenderam as rivalidades esportivas para atuar conjuntamente ao lado da população, unificados em torno de pautas sociais mais amplas e, em especial, da defesa da causa Mapuche. Essa convergência evidencia como as culturas torcedoras podem transcender o campo esportivo e operar como agentes políticos ativos.
Sibelle Barbosa
Museóloga do Museu do Futebol
NOTA
[1] Os Mapuches são um povo importante da região central do Chile e seu nome significa “povo da terra”. Ocupavam uma área entre os rios Maule e Tolten, da costa aos vales centrais do País. Esse grupo étnico nunca foi subjugado pelos espanhóis e somente com a chamada “Pacificação da Araucanía”, o exército chileno os despojou de suas melhores terras e os entrincheirou, e essa é a origem do conflito do Estado chileno com o povo Mapuche que já perdura há meio século (MUÑOZ, 2025).
[2] Esta data se refere à fundação do Club Social y Desportivo Colo-Colo.
[3] Torcedores que se unem para torcer e apoiar seus clubes incondicionalmente. Tiveram um desenvolvimento e apresentam formas diferentes de torcer das torcidas organizadas brasileiras. Para saber mais: OLIVEIRA. Elias Cósta de. As interfaces da prática torcedora pelo mundo contemporâneo: hooligans, ultras, torcidas organizadas e barras bravas. Esporte e Sociedade. Niterói, n. 36, 2022. p. 1-26.
[4] CAFFIERO, Hrnán; PÉREZ, José. Raza Brava. Santiago: Sudaka Films. 2008. Suporte digital, 80 min. Acesso em: 23 dez. 2025.
[5] RODRIGUES, Bruno. Como o futebol se uniu ao povo chileno em protestos contra o governo. Folha de S. Paulo, São Paulo, 27 out. 2019. Edição online. Acesso em: 23 dez. 2025.
Referências bibliográficas:
CORNEJO, Miguel. As barras no futebol chileno: fenômeno social ou violência inata. In: Torcidas organizadas na América Latina: estudos contemporâneos. HOLLANDA, Bernardo Borges Buarque de. AGUILAR, Onésimo Rodríguez (orgs). Rio de Janeiro 2017. p. 101 – 122.
MUÑOZ, Estela Socías. Cultura mapuche e a sua não descolonização no Chile. Cadernos de História da Educação, [s.I.], v. 24 n. . p. 1-12. 2025. Disponível em: . Acesso em dezembro de 2025.


