Camisa amarela, possivelmente confeccionada em tecido 100% algodão [1], medindo 63cm de altura e 50cm de largura. Possui gola em formato “V” aplicada com inserto interno em verde e botão, além de mangas compridas, com punhos verdes em malha canelada. Na parte frontal, à esquerda, encontra-se, costurado em linhas brancas, o escudo da CBD (Confederação Brasileira de Desportos) [2]. O emblema possui fundo azul, faixas verticais e horizontais verdes com contorno em linhas amarelas e, sobreposto a elas, uma cruz branca de oito pontas, com a inscrição “CBD” em azul. No verso da peça, ao centro, foi costurado o número “8”, em formato angulado e na cor azul. O uniforme apresenta marcas de desgaste compatíveis com a ação do tempo, incluindo pequenas manchas marrons distribuídas ao longo do tecido. A camisa foi confeccionada pela Athleta, malharia brasileira de artigos esportivos responsável por vestir a Seleção Brasileira entre as décadas de 1950 até 1970.

Há dois aspectos do item que se destacam: suas mangas longas – o modelo foi escolhido devido às baixas temperaturas no Chile, o país-sede da Copa do Mundo de 1962 – e a cor da numeração. Em 1962, bem como no torneio mundial de 1966, os números costurados nas costas das peças eram azuis. Posteriormente, em todas as outras edições, os números das camisas principais passaram a ser verdes.

Atribui-se o uso dessa camisa ao jogador Waldyr Pereira, o lendário Didi, que disputou todas as seis partidas da campanha do bicampeonato. Mario Filho teria escrito no Jornal dos Sports que, na Copa de 1962, o genial armador do Botafogo F.R. decidiu jogar recuado, à frente da zaga, porque achava Mauro e Zózimo “clássicos demais”. O jornalista carioca comparou sua função em campo à do que seria mais tarde conhecido como líbero. Cérebro do meio-campo, Didi já havia sido eleito o melhor jogador da Copa de 1958 e voltou a liderar a equipe, com sua elegância e precisão nos passes.

Inicialmente, o torneio foi marcado pela lesão na virilha de Pelé na segunda partida da fase de grupos, o que o deixou de fora de todo o resto da competição. Mas a Seleção encontrou em Garrincha seu grande destaque ofensivo. O Brasil venceu o México, empatou com a Tchecoslováquia e voltou a vencer no jogo contra a Espanha na fase inicial. Superou a Inglaterra nas quartas e o Chile na semifinal. Na decisão contra a Tchecoslováquia, a vitória por 3 a 1 consolidou o bicampeonato.
A Copa do Chile marcou o fim do ciclo da geração bicampeã, formada por jogadores como Nilton Santos, Zózimo e o próprio Didi.
Marcelo Duarte
Jornalista e curador da exposição Temporária “Amarelinha”
Com a colaboração da equipe do Centro de Referência do Futebol Brasileiro
NOTA
[1]. O algodão é uma fibra natural cultivada no algodoeiro que, após o processo de fiação, dá origem ao fio de algodão. Na etapa de tecelagem, esse fio pode resultar em tecidos de composição 100% algodão ou em tecidos mistos, combinados com outros tipos de fibras. Até meados da década de 1970, o algodão predominou na confecção das camisas de futebol. Contudo, por ser um tecido natural, ele absorve e retém o suor e a água da chuva, o que tornava as camisas mais pesadas durante as partidas.
[2] Criada em 1916, a CBD era a entidade responsável por gerir os esportes no Brasil. Foi extinta em 1979, com a criação da Confederação Brasileira de Futebol (CBF).


