A camisa número 18

Camisa amarela, possivelmente confeccionada em tecido 100% algodão [1], medindo 63cm de altura por 80cm de largura. Possui gola em formato de “V”, na cor verde. As mangas possuem punhos, também verdes, em malha canelada. Na parte frontal, à esquerda, encontra-se, costurado em linhas amarelas, o escudo da CBD (Confederação Brasileira de Desportos) [2]. O emblema possui fundo azul, faixas verticais e horizontais verdes e, sobreposto a elas, uma cruz branca de oito pontas, com a inscrição “CBD” em azul. No verso da peça, ao centro, foi costurado o número “18”, em formato angulado. Apresenta ainda marcas em toda sua extensão que se assemelha a traços retos. O uniforme possui marcas de desgaste compatíveis com a ação do tempo, como um pequeno furo na gola e um rasgo em uma das mangas, além de manchas. Estas dão um aspecto alaranjado ao item, e são provavelmente decorrentes da umidade do suor e da água da chuva.

Camisa da Copa do Mundo de 1958 atribuída ao jogador Mazzola | Coleção Cohen Succar | Foto: Nilton Fukuda

Um fato curioso, é que há duas etiquetas na peça. Isso porque, em 1958, as camisas da Seleção Brasileira possuíam mais de um fornecedor de material esportivo. A Ceppo e a Superball eram responsáveis pelos uniformes de jogo, enquanto o material de treino era fornecido pela Athleta [3].

Atribui-se o uso dessa camisa ao jogador da S.E. Palmeiras, José Altafini, conhecido como Mazzola, que já estava vendido ao A.C. Milan, da Itália, quando a Copa do Mundo de 1958, na Suécia, começou. Dos seis jogos, ele disputou três: 3X0 na estreia contra a Áustria, 0X0 contra a Inglaterra (o primeiro empate sem gols da história dos Mundiais) e o 1X0 contra País de Gales. Fez dois gols contra os austríacos.

Um fato curioso dessa edição da Copa é que o primeiro título mundial da amarelinha não teve a amarelinha na final. Na decisão de 1958, contra os donos da casa, o Brasil foi obrigado a trocar de uniforme porque os suecos, anfitriões do torneio, também jogavam de amarelo. Como a equipe brasileira não tinha um segundo uniforme preparado, surgiu uma corrida de última hora para procurar outra camisa. Conta-se que roupeiro Francisco de Assis, o tesoureiro Adolfo Marques Júnior e o dentista Mário Trigo pagaram o equivalente a 35 dólares na época em um jogo de camisas azuis, encontrado na cidade de Boras, centro têxtil da Suécia. As camisas ainda teriam precisado receber às pressas os escudos da CBD costurados no peito, que foram despregados das camisas amarelas e costurados nas azuis, durante a noite, pelo roupeiro. 

O chefe da delegação brasileira, Paulo Machado de Carvalho, aproveitou a coincidência para transformar a troca em motivação. Reza a lenda que ele teria lembrado aos jogadores que o azul era a cor do manto de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil”, e disse que aquela camisa traria sorte à Seleção. Funcionou: o Brasil venceu por 5X2 e conquistou seu primeiro título mundial.

Mas, se Mazzola começou a Copa como titular, por que ele usava a camisa 18? A escolha da numeração da Seleção Brasileira na Copa de 1958 aconteceu de forma quase improvisada. Naquela época, os números ainda não eram tão associados às posições e aos jogadores como hoje. A CBD enviou à organização da Copa apenas uma lista com os nomes dos atletas, sem definir quem usaria cada camisa. Uma das versões mais difundidas afirma que Lorenzo Villizio, representante do Uruguai no Congresso da FIFA, resolveu completar a numeração por conta própria e aparentemente de maneira aleatória.

Por causa disso, o goleiro Gylmar ficou com a camisa 3; o zagueiro Zózimo, com a 9; Garrincha usou a 11; e Zagallo, a 7. Aos 17 anos, Pelé recebeu a camisa 10 quase por acaso – um número que, até então, não tinha o peso simbólico que ganharia depois daquela Copa. O desempenho genial de Pelé no Mundial transformou para sempre a 10 no símbolo máximo do craque e da criatividade no futebol. Pelé assumiu a titularidade da Seleção Brasileira justamente na vaga deixada por Mazzola. A camisa 18, que se acredita ter pertencido a José Altafini, é a peça mais antiga em exibição na mostra temporária Amarelinha, em cartaz no Museu do Futebol até 7 de setembro de 2026. Convidamos você a conferir essa e outras histórias!

Marcelo Duarte
Jornalista e curador da exposição Temporária “Amarelinha”

Com a colaboração da equipe do Centro de Referência do Futebol Brasileiro

NOTA

[1]. O algodão é uma fibra natural cultivada no algodoeiro que, após o processo de fiação, dá origem ao fio de algodão. Na etapa de tecelagem, esse fio pode resultar em tecidos de composição 100% algodão ou em tecidos mistos, combinados com outros tipos de fibras. Até meados da década de 1970, o algodão predominou na confecção das camisas de futebol. Contudo, por ser um tecido natural, ele absorve e retém o suor e a água da chuva, o que tornava as camisas mais pesadas durante as partidas.

[2] Criada em 1916, a CBD era a entidade responsável por gerir os esportes no Brasil. Foi extinta em 1979, com a criação da Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

[3] Até 1970, a produção das camisas da Seleção foi realizada por malharias nacionais, sobretudo no Rio de Janeiro e em São Paulo, como Athleta, Ceppo e Superball.

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