
Por Laura Magalhães
Existe uma solidão particular em acionar a tela de um celular e encarar o vazio antes que o universo decida se temos o direito de discutir futebol. Crescemos recolhidas em cantos de salas, observando homens de terno que batiam nas mesas nas reuniões de domingo, senhores de uma paixão que também nos pertencia, mas que recebíamos apenas como um enfeite. O futebol era deles; a nós, restava um silêncio complacente ou um sorriso ensaiado nos intervalos da publicidade. Fomos a torcida invisível de um esporte que nos deixava à parte.
Até que conseguimos mudar essa dinâmica. Sem pedir permissão, transformamos quartos em estúdios de transmissão e telas brilhantes em arquibancadas iluminadas. Não foi algo simples. O primeiro vídeo publicado é sempre uma experiência desafiadora: entregamos nossa essência à rede e recebemos, em troca, o eco de um julgamento antigo. “Você vai lavar a louça”, comentavam. “Quer a atenção de jogador”, escreviam com a indignação de quem se sente impotente. Cada análise tática, cada emoção expressa em textos ou gravações era recebida não com debate, mas com uma inquisição disfarçada de teste de conhecimento. Exigiam que soubéssemos a escalação do Madureira de 1974 para validar nosso direito de chorar por um gol de ontem. Sofríamos ataques inesperados, que atingiam diretamente a nossa inocência, vindos de avatares sem rosto que nunca suportaram o peso de uma chuteira molhada.
Contudo, existe algo na essência de uma mulher que se dedica ao futebol que o ódio digital nunca conseguiu compreender: a habilidade de transformar dor em resistência. Não recuamos. Ao contrário, criamos uma rede de carinho e rigor técnico. Onde outros viam apenas dados cru e hostilidade, nós injetamos poesia, memórias e um senso de justiça. Resgatamos as pioneiras que jogavam nas sombras quando a legislação brasileira afirmava que nossos corpos eram “incompatíveis” com o futebol. Abordamos o esporte não como se tivéssemos um território a defender, mas como se cuidássemos de um espaço sagrado e compartilhado.
Agora, o relógio avança em direção a 2027. A Copa do Mundo Feminina no Brasil chega como um milagre esperado, uma primavera que levou décadas para florir. Não será simplesmente um torneio de elite; será o resultado de todas as nossas longas noites editando áudio, de todas as lágrimas contidas diante de um cenário hostil, de cada texto produzido com mãos trêmulas de coragem, mas firmes na convicção. Em 2027, aquelas que romperam as barreiras digitais estarão presentes nas arquibancadas, nos campos, nas verdadeiras torcidas. Seremos nós, as criadoras de conteúdo, as operárias das palavras, que contaremos esta história ao mundo. Seremos o coração e os olhos de um país que finalmente se olhará no espelho do vestiário e descobrirá sua essência feminina.
Quando a primeira bola rolar em um estádio cheio e o clamor da torcida fazer o concreto vibrar, não haverá ódio ou preconceito que consiga abafar nossa voz. Estaremos lá, completas, livres e decisivas. Porque o futuro não é algo que se aguarda passivamente à beira do campo; é uma resposta ideal que nós criamos, quadro a quadro, na tela do celular. A revolução já foi totalmente carregada.
Texto vencedor do Concurso de Crônicas e Contos do Museu do Futebol 2026 (4º ao 20º lugares)


