
Por Luciano Furtado
Há mais de cem anos sustento o mesmo céu. Plantaram-me aqui quando o gramado ainda era um descampado de terra dura e batida, e desde então não perdi minha posição. É o meu ofício: ficar. Ver passar.
Vi muita coisa de cima dos meus quase três metros. Vi homem beijar minha madeira depois do gol e também, aquele que me esmurrou depois da bola perdida, como se a culpa fosse minha. Vi joelhos trêmulos, vi cotovelos subirem, vi o juiz fingir que não viu. Aprendi cedo que o futebol é um teatro de machos, e eu, a moldura por onde toda aquela glória precisava passar no desejo de virar história.
Decoraram meu nome em estátua, meu travessão em poesia. “A trave salvou”, diziam, como se eu tivesse vontade. Não tenho. Sou apenas o limite, o alvo. O lugar onde o impossível encosta antes de decidir se acontece.
Por décadas, achei que conhecia tudo. Conhecia o cheiro do suor, o som do couro, a vibração de quarenta mil gargantas roucas. Conhecia a brutalidade e a beleza de quem chuta para matar. Pensei que nada mais pudesse me surpreender. Madeira velha é assim: confunde durar com saber.
Até a tarde em que elas chegaram.
Vieram em silêncio, sem holofote, com as chuteiras gastas, sem o glamour das marcas e os cabelos presos. Ninguém gritou os nomes delas pelo alto-falante. As arquibancadas estavam quase vazias, e mesmo assim corriam como se o estádio inteiro pulsasse. Corriam por nada, nem dinheiro, nem fama, nem o beijo da multidão. Corriam pelo gesto puro de correr e quem sabe, pra soltar o grito preso na garganta.
Confesso que torci o nariz de madeira. “Não vão aguentar”, pensei, com a arrogância de quem foi cúmplice de tanto preconceito sem nunca ter dado um único passo.
Aí ela apareceu. A número dez.
Recebeu a bola nas costas da defesa, ergueu os olhos, e eu senti, juro que senti, na fibra mais funda dos meus pregos, que aquilo seria diferente. Ela não chutou para humilhar. Chutou para libertar. A bola subiu girando, desenhou no ar uma curva que eu nunca tinha visto em sete décadas de chutes, e veio na minha direção com uma delicadeza feroz.
Encostou em mim. De leve. Beijou minha madeira como quem pede licença e, em vez de voltar, entrou.
Foi quando entendi que durante toda a minha vida eu estive errada sobre uma coisa. Eu achava que era a moldura da glória dos outros. Mas naquele instante percebi que eu nunca tinha visto, de verdade, alguém jogar livre.
A torcida minúscula explodiu como se fosse multidão. E eu, que sempre fui o limite, pela primeira vez quis não existir, para que aquela bola pudesse ir ainda mais longe.
Hoje me orgulho do que sou. Não a trave que salva. A trave que finalmente deixou passar.
Plantaram-me aqui há anos, e só agora, vendo essas mulheres em campo, aprendi por que me chamam, em toda língua deste mundo, no feminino.
Texto vencedor do Concurso de Crônicas e Contos do Museu do Futebol 2026 (4º ao 20º lugares)


