Ilustração com fundo azul mostrando desenhos de jogadoras com os dizeres "Concurso de Crônicas e Contos do Museu do Futebol 2026)

Por Jordana Brandão

 

Angela apaixonou-se pelo futebol antes mesmo de aprender a falar. Existia um impulso incontrolável que a levava sempre a buscar uma bolinha para chutar. Assistia empolgada o Brasileirão junto com o avô, são paulino, que apesar dos esforços teve o desprazer de ver a netinha ser corinthiana roxa, depois de ver bailar Carlitos Tevez.

O tempo foi passando e Angela percebeu que além do encanto por esse esporte tão fascinante, também encantava-se por mulheres.

Em uma sexta-feira qualquer, assistindo a um belo jogo da Série C na TV do seu bar favorito, Angela avistou uma moça linda, com uma camisa do Corinthians raríssima dos anos 90 e não teve dúvida: “Preciso conhecê-la”.

Amora, que havia acabado de descobrir uma traição da sua namorada, foi para o bar afogar as mágoas. Tinha em mãos um par de ingressos para a grande final do Brasileirão Feminino entre Corinthians x Palmeiras, que tinha reservado para a parceira (agora ex). O jogo começaria em poucas horas.

Angela se aproximou, puxou assunto e o papo fluiu. Amora então convidou Angela para acompanhá-la até o jogo.

Chegando lá, tudo lindo, clima maravilhoso, Angela era um olho no campo e outro em Amora e…com que paixão aquela mulher torcia!

Angela percebia que naquele momento o torcer de Amora era também uma forma de colocar para fora o sentimento daquele baque que acabara de sofrer. E o futebol era assim para ela também, uma forma de expressar os sentimentos profundos e por vezes sufocados.

O jogo foi perfeito, Coringão sagrou-se campeão com sobras. Entre gritos, fogos, pulos e abraços, Angela viu a jogadora camisa 10 do Corinthians aproximando-se do alambrado, com uma camiseta comemorativa em mãos, prestes a jogá-la para os torcedores na arquibancada.

Angela, em fração de segundos, soube que deveria conquistar essa camisa e presentear Amora. Custe o que custasse, lutaria até o fim.

Quando viu a camisa voando, tão veloz como um gavião, Angela, com seus 1,60m de altura, deu um salto e agarrou, mas ela não esperava que, do outro lado do tecido, um homem gigantesco e com pinta de bodybuilder também segurava com toda sua força.

Ai não tinha jeito, agora ia ter que ser como diz a música: “sangue no olho”. Angela não desistiu, jogou todo peso do corpo em cima do pano e acreditou no seu potencial. Em volta, outras mulheres gritavam “vai, não solta, não solta!”. Por fim, o homem desistiu.

Angela entregou o presente, como se fosse um troféu, para a mulher que hoje chama de esposa e é sua eterna companheira de arquibancada.

 

Texto vencedor do Concurso de Crônicas e Contos do Museu do Futebol 2026 (4º ao 20º lugares)