
Por Túlio Pires Bragança
Lembro que estava carregando. Não lembro se uma fruta ou pedaço de bicho morto. Carregar é tudo que a gente faz.
Carregamos, levamos, voltamos, carregamos de novo. Mas naquele dia havia um papel no meio do caminho. Fino, manchado, com marcas escuras que os humanos chamam de letras e que nós reconhecemos pelo cheiro de tinta.
No meio das marcas, uma palavra maior que as outras.
Formiga.
Larguei o carregamento e parei, o que é contra as regras. Quando uma formiga para logo umas duzentas aparecem. Foi o que aconteceu.
Fiquei olhando para aquela palavra como se ela tivesse me chamado pelo nome. Porque era meu nome. Era o nome de todas nós.
Chamei a Capitã, que entende mais de humanos. Ela veio, foi passeando devagarzinho pelas letras e disse: Tem uma humana com nosso nome. Ela joga bola. Camisa amarela.
Banana é amarela. Manga é amarela. O sol que aquece o chão antes da chuva é amarelo. Não sabia nada sobre bola mas soube na hora que essa humana era das nossas.
Armamos um comitê para falar com a Rainha. A Rainha ouviu tudo sem nos interromper, o que sempre é um bom sinal, e ordenou: Vão. Levem quantas quiserem. Tragam um relatório.
No total fomos quarenta e três. Quarenta e três mil.
A maioria dos humanos nunca nos percebem. Nossa natureza e força é essa. Entramos pela fresta, pelo ralo, pela sola do sapato, pelo espaço que ninguém imagina que precisa fechar.
No estádio nos dividimos. Arquibancada, vestiário, banco de reservas. Eu fiquei no túnel.
Do vestiário o primeiro relatório. Ela é menor do que imaginamos. Fica amarrando a chuteira duas vezes. Fica olhando pro chão com cara de quem está em outro lugar mas sabe exatamente onde está.
Do banco: O joelho direito dela mexe sem perceber, abre e fecha, abre e fecha, como se estivesse conversando baixinho.
Da arquibancada um som crescendo devagar, como zumbido de abelha.
Formiga. Formiga. Formiga.
Não era pra gente.
Trinta e dois minutos do segundo tempo.
A camisa amarela número oito apareceu debaixo das luzes da Arena como manga madura, como sol desenhado com giz de cera por criança. Entrou em campo. O estádio explodiu.
Relatório do gramado: O passe é curto, chega no lugar que tem que chegar. Carrega o meio-campo sem que ninguém perceba seu peso. Faz e some.
Do banco um outro relatório: É igualzinha a nós. Faz o coletivo funcionar e some antes do aplauso.
As colegas da arquibancada ouviam os humanos comentarem: Sete Copas, quarenta e três anos, nunca recebeu o que merecia.
Nós sobrevivemos a dinossauros. Ela sobreviveu ao esquecimento.
No final ela ficou um tempo parada no meio do campo. Outras humanas vestidas de amarelo foram ao seu redor, exatamente como fazemos com a Rainha.
Suas palavras ecoaram no estádio.
Depois saiu como sempre esteve, invisível para quem não sabia olhar.
Nós sabíamos olhar. Quarenta e três mil, no mesmo lugar, sem que nenhum humano tivesse visto.
A Capitâ disse baixinho o estávamos pensando: Ela tem nosso nome por um motivo.
De volta pra colônia carregamos a história junto com o alimento. No relatório para a Rainha, as palavras da camisa 8 amarelo deixou:
Muitas dessas garotas aqui tem um sonho. Assim como você teve e conquistou. É nosso dever continuar e dar oportunidade para que todas elas possam chegar.
Texto vencedor do Concurso de Crônicas e Contos do Museu do Futebol 2026 (4º ao 20º lugares)


