Ilustração com fundo azul mostrando desenhos de jogadoras com os dizeres "Concurso de Crônicas e Contos do Museu do Futebol 2026)

Por Felipe Beiragrande

 

Majô sabia de memória porque ela mesma havia contado. De vez em quando recontava, sem pressa nenhuma. Ia revendo na cabeça os melhores momentos. No ônibus, na fila do mercado, antes de dormir. Cinquenta e três gols marcados em trinta anos de futebol. Nenhum dentro de um campo oficial.

Ela começou nos campinhos de terra da Compensa. Bola de borracha, gol de sandália, joelho ralado. Jogava com os meninos do beco. Era a única menina. Os moleques só deixavam ela jogar porque tinha um canhão na perna esquerda. Chutava mais forte do que a maioria deles.

Depois veio a pelada das funcionárias da fábrica, num terreno baldio esquecido do Distrito Industrial, toda sexta depois do expediente. O supervisor fingia não ver. Uma vez até apitou.

Fez parte do São Raimundo de 1997. Jogou uns quinze minutos no campeonato todo. Correu muito. Não fez gol.

Teve que parar quando as gêmeas chegaram.

A mais nova começou a se destacar no colégio. Majô não disse nada. Deu um jeito de colocar a moça na escolinha de futebol. Ia levar e ia buscar, esperava no banco lá fora, às vezes até assoviava. Renata tentava conversar com a mãe sobre o jogo, mas nada. Majô nunca contou pra filha que dentro dela havia cinquenta e três grandes momentos.

Viu Renatinha entrar no gramado do Mané Garrincha. Pulando só com o pé direito, fazendo o sinal da cruz. Número 9 nas costas de uma camisa amarelo-canário. Majô segurava um copão de Coca que tinha esquecido de beber.

O passe veio muito alto.

Renata dominou no peito, ficando uns segundos flutuando no ar. Sem parar, girou e chutou.

A bola entrou no ângulo.

Era semifinal da Copa do Mundo.

Majô ficou sentada, enquanto o mundo explodia. O copo caiu. Ela bateu palma três vezes, devagar.

Sentiu a garganta fechar de um jeito que não sabia explicar. Não era tristeza, não era exatamente orgulho, era outra coisa que não tinha nome, ou talvez tivesse e ela nunca aprendeu o que era.

Sorriu de canto de boca. Cinquenta e quatro.

 

Texto vencedor do Concurso de Crônicas e Contos do Museu do Futebol 2026 (4º ao 20º lugares)