Ilustração com fundo azul mostrando desenhos de jogadoras com os dizeres "Concurso de Crônicas e Contos do Museu do Futebol 2026)

Por Daiane Nascimento

 

Só quem teve o privilégio de assistir futebol desse ângulo sabe a sensação que é. Pernas em cima dos ombros de alguém, mãos suadas, às vezes segurando a testa pra não cair com a emoção. De cavalinho, ou “cacunda”, como se fala no Nordeste.

Minha primeira vez no estádio foi no Pacaembu, em 1995, num clássico: Corinthians x Palmeiras. A camiseta do Corinthians grudava no peito, no calor de 33 graus. Ônibus, trem, perna doendo, sede. O estádio era muito barulhento, quente, gente demais. Eu me sentia um mosquitinho perdido ali no meio daquele monte de gente, na maioria homens. Naquela época, quase não se viam mulheres e meninas nas arquibancadas. De um lado, tudo preto e branco. E no outro, verde e branco.

Eu olhava para o lado e, segurando minha mãozinha, estava ela.

— Hoje você vai ver o Marcelinho Carioca, menina!

Minha avó era corinthiana roxa. Andava com uma camiseta que um dia foi branca e preta, desbotada de tantas lavagens. Era apaixonada também pelo futebol de várzea. Dizia que quase tinha montado um time em casa: sete filhos homens. Na boca do povo da nossa rua, ela era considerada “mulher macho”, daquelas que não levavam desaforo pra casa e peitavam qualquer marmanjo.

Aos domingos, lá estava ela, gritando na beira do campo, comprando briga pelos filhos, ela dizia não ter paciência pra novela, bom mesmo era futebol.

Aquele dia era minha iniciação. Eu pisaria no estádio pela primeira vez, lugar onde nenhuma outra mulher da família, a não ser Dona Estelita, havia pisado. Saímos sob mil recomendações da minha mãe. Eu estava ansiosa pelo jogo, pelo passeio, mas algo me deixava ainda mais animada: subir na cacunda da minha avó. Minha avó era uma mulher de pouco contato físico, endurecida pela lida. Nos jogos, ela se tornava acessível, através da cacunda. Me sentia grande, importante e, principalmente, amada.

O mundo dos homens ficava pequeninho lá embaixo.

Ela me ergueu nos ombros. Minhas pernas apoiadas, a camiseta encostada no corpo dela. Eu segurava ora nas mãos calejadas, ora na cabeça molhada de suor, sentindo os cabelos grisalhos grudarem nas minhas mãos. O Palmeiras fez um gol primeiro. Minha avó xingou. Só não era pra repetir, ela disse. Então eu imitava seus gestos e reações, menos os palavrões.

Ela respirou fundo e disse, mais pra ela do que pra mim:

— Calma, fia, respira! Temos o Marcelinho, Pé de Anjo, você já sabe por que né?

No segundo tempo, ele cobrou uma falta. O estádio silenciou. Quando a bola entrou, explodiu. O chão tremeu. Eu tampava os ouvidos. Minha avó vibrava como se fosse menina da minha idade. O Pé de anjo fez outro gol.

Fim de jogo.

Ela me desceu dos ombros, me abraçou e sorriu. Ela, uma mulher austera, quase sempre brava, mãe rígida, ali era uma menina feliz.

Tempos depois, fui visitá-lo no hospital. Levei a camiseta branco, quase sem nenhuma tinta preta, agora amarela, e coloquei na cabeceira de sua cama. No celular, o hino do Corinthians, baixinho e sussurrei:

— Eternamente, dentro de nossos corações. Nesse trecho, desabei. Foi a última vez que eu a vi.

Hoje, quando vejo os estádios cheios de torcedoras, arbitragem feminina, narradoras e as mulheres brilhando em campo, meu peito se enche de orgulho.

Ela, sorriria ao ver que o mundo que antes ficava pequeninho lá de cima, agora também é nosso aqui embaixo.

 

Texto vencedor do Concurso de Crônicas e Contos do Museu do Futebol 2026 (4º ao 20º lugares)