Ilustração com fundo azul mostrando desenhos de jogadoras com os dizeres "Concurso de Crônicas e Contos do Museu do Futebol 2026)

Por Maiara Melo

O que eu quero contar é sobre esse jogo intenso, dramático, alguma coisa delicado, também, porque a suavidade sempre permeia as grandes histórias. Esse jogo que tem como ponto alto as mulheres ganhando. Certa feita, uma torcedora do Clube Náutico Capibaribe, como não haveria de ser diferente – pois habituadíssima a morrer na praia e, portanto, sinceramente querendo se encher da mais profunda esperança já totalmente crente na desesperança -, lamuriava-se sobre as guerras, capitalismo, violências várias assolando o mundo aqui e ali, doenças pandêmicas, como as mulheres estavam expostas neste mundo na beira do fim, tentando chegar no momento em que a esperança seguiria sua jornada do herói e retornaria com o elixir do sucesso. Enfim, perdendo-se entre parênteses e eteceteras, desacreditada, não chegou lá – no sucesso. Mas quase! Nada disso se entendia comigo. Ou com nós, mulheres santacruzenses corais. Forjadas no quente concreto do José do Rego Maciel, o Arrudão, a casa do Time do Povo, do Santa Cruz Futebol Clube, demos para ver esperança em tudo. Quando caímos da série B para a C e da C para um lugar inexistente, então, milagrosamente, criou-se: a série D. E assim toda uma nação aprendeu que para todo problema há uma solução. Quando o Arrudão foi interditado e os jogos precisaram migrar para a Arena de Pernambuco, o coração tricolor tinha tudo para desacelerar: mobilidade mal planejada e prejudicada por engarrafamentos quilométricos, sem a característica comunidade de negros e negras perifericas cercando o campo, sem os três latões de cerveja a dez reais para aquecer no pré-jogo, sem os carrinhos de espetinhos postos em cada esquina, na beira do canal, entre os varais de bandeiras, cavalinhos de pelúcia e camisas falsificadas com pouca maestria. Sem as três cores pintando o frio porcelanato tão vistoso, impecável. Moderno. Tão moderno que, para as mulheres, então, que depois de vencer a primeira, segunda e terceira jornada, precisariam vencer a estrada para chegar nesse lugar tão mais distante, tão mais caro, tão mais difícil de ser vivenciado, desconhecido e, portanto, perigoso de lidar. Um jogo fadado à derrota. Mas devemos, lembrem-se, falar de nós vencendo. Organizadas, fretando um ônibus para percorrer caminhos possíveis, burlando o alto valor do deslocamento. Preenchendo só de mulheres e crianças cinquenta e seis lugares, diminuindo os riscos e violências. Formando uma comunidade aliançada no afeto, no cuidado. Cuidando umas das outras. Cuidando umas dos filhos e filhas das outras. Vencendo o vazio que cerca o estádio em comunidade. Formando a própria comunidade: compartilhando comidas e bebidas embaixo de um toldo improvisado, todos os jogos, no estacionamento tão quente quanto o concreto do Arruda. Lembrando de casa, porque se fez uma nova casa. Conscientemente criando crianças torcedoras e uma nova gramática, também. Questionando os xingamentos que passam por ridicularizar o rival o tornando… feminino. Escrevendo uma nova história: de um futebol sendo passado de mulher para mulher, de geração em geração, sem precisar explicar o que é um escanteio, porque fala-se, sobretudo, sobre como é bom torcer livre. E toda liberdade, mesmo longe de casa, sempre encontra um jeito de jogar no Arruda.

 

2º Lugar do Concurso de Crônicas e Contos do Museu do Futebol 2026