
Por Igor Maciel
Outro dia, em BH, eu tomava um cafezinho e o assunto era um só: a separação de João Bosco e Adelina. Na assinatura dos papéis acharam que o homem teve uma síncope, mas estava morto, e eu fiquei de queixo caído quando soube do motivo: f-u-t-e-b-o-l!
Sentei-me no balcão e um senhor muito bem-vestido, um tal de Dr. Victor Andrade de Melo – estava escrito assim no paletó dele, puxou assunto comigo:
– Que o tal João é fascinado por futebol todo mundo do bairro já Agora, a Dona Adelina, sua esposa?!
Não consegui perguntar do que ele falava, porque outro senhor muito bem aparentado que estava lá, retrucou:
– Pois é isso Inclusive, eu fiz o divórcio e a divisão de bens. Dr. Aldir Ludo, às ordens!
– Como foi isso? Nós dois o perguntamos, e ele prosseguiu:
– Uai, o senhor Bosco, homem de bem, me mandou um telegrama: quero me separar doutor! Eu pedi que ele me explicasse melhor e marcamos uma hora. No dia e horário combinado me Entrou, sentou, tirado o chapéu me contou que toda vez que assistia a Várzea televisionada, alguma coisa acontecia: Adelina chamava a mãe pra ir dormir lá; ligava a estação e começava a cantar; e teve mais de um dia que a luz acabou. Naqueles dias a esposa até falava, “vai pro bar ou pra entrada, homem”. Porém, quando não era dia de “clássico” ele dava um pulinho, um instantinho no bar, e a mulher durante dez noites o fazia jejuar, me contou.
Depois de muitos motivos para assistir a Várzea fora de casa, em mais um dia que a luz acabou, fez que ia para o bar e não foi. Em minutos a luz voltou e a mulher sumiu lá para dentro. Achando aquilo muito estranho viu ela fechando a caixa do disjuntor e depois parada na área do tanque olhando para a reta do campão – o lugar dava para as costas da casa. Até aí tudo bem, ele achou que ela estava pensativa na vida, só que aconteceu outra coisa: a mulher gritou DENGO!, logo no segundo gol do Tico! Aí homem me disse que naquela hora tirou sem pensar o cinto e bateu até cansar. Eu disse para ele que não devia, porque homem que bate em mulher vai preso, é crime! Mas o tal era tosco, na cabeça dele a mulher não entendia de pelada nem nada, tinha só que se garantir na cozinha.
Passados uns dias, dado início a papelada, Dona Adelina não quis Boletim, só pediu o divórcio, a divisão da casa, e que ela ficasse com a metade que dava para o campo, incluindo a área de tanque. Seu João Bosco, de raiva ficou vermelho, mas aceitou, com uma ressalva: que em dia de prélio ele pudesse se sentar na área para assistir. A mulher sem demora retrucou: “se você não relar em mim e não me impedir de tirar a camisa, eu aceito…”. O homem estava com a caneta na mão, teve uma síncope e caiu duro no chão. Morreu antes de assinar o divórcio, feito um gol anulado.
– E a Adelina?, indagamos!
O Dr. Ludo respondeu que ela estava de reunião todo dia com a vizinha, Yolanda, para montarem uma torcida de nome “Mulher também tira a camisa” – antes de finalizar a sua fala fomos acudir o Melo que sentiu um aperto no peito enquanto dizia, a nível de… Yolanda é minha esposa.
Eu fui embora. É muito doutor querendo saber de bolapé.
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* Antes de prosseguir, escute as seguintes músicas de João Bosco e Aldir Blanc: “A nível de”, “Gol anulado” e “Incompatibilidade de gênios”.
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Texto vencedor do Concurso de Crônicas e Contos do Museu do Futebol 2026 (4º ao 20º lugares)


