Ilustração com fundo azul mostrando desenhos de jogadoras com os dizeres "Concurso de Crônicas e Contos do Museu do Futebol 2026)

Por Helenice Schiavon

 

Era noite de São João, mas isso agora parecia não ter mais a menor importância: definitivamente, não eram pra tanto o Santo, o coro, os foguetes de vara, as girândolas, os estalinhos… Era noite de Santo sim, e refrão incansável vinha do radinho de pilha:

Noventa milhões em ação… Todos ligados na mesma emoção…

Estirada na cama, quando o estribilho ecoava mais longe, ela deixou escapar um sorriso meio bobo, meio maroto, daqueles de alívio – de quem sabe que um segredo ainda precisa permanecer em segredo. Um pouco mais tarde, um respiro fundo veio pouco antes das pálpebras se renderem ao escurinho do quarto. Foi quando sonhou.

Sonhou com o cheirinho novo das chuteiras, com o toque amoroso da camiseta nos seios-menino, com o vermelho subindo poeirento no alto do céu. Ouviu o barulho das gentes nas arquibancadas, os gritos dos meninos disputando os geladinhos e, com os olhos que a terra haveria um dia de comer, viu-se diante da bola no círculo central.

Chutou e chutou. Correu e correu. Caiu. Levantou. Driblou, estonteou o zagueiro, chutou de novo e de novo, enchendo a rede de gols como nunca. Um som de apito cortou o ar, ocupou os ocos da arquibancada, a torcida ovacionando. Correu para a beira do campo, despencou de joelhos, a terra tingindo-os de vermelho. Gritou para a arquibancada:

Mãe, olha isso! Olha o quê?

Olha eu.

A menina que nasceu preta e pobre?

Não, Mãe, escuta isso: eu não quero ser mãe. Ah, não? E então o quê?

Quero fazer coisa de menino. Coisa de menino? Tipo o quê? Tipo jogar bola…

Vai vendo! Os home num vai deixar você fazer coisa de menino. Já te disse: nasceu pra ser mãe, preta e pobre.

Apertou os olhos. Encaixou o corpo de menina no buraco. Tinha jeito melhor de fingir de morrer do que este?

Menina, preta e pobre era o que ela era… O cheiro da terra lhe subiu às narinas, empoeirando-lhe os braços. Deixou escapar um sorriso meio bobo, meio maroto, daqueles de quem sabe que o segredo, Ufa! ainda está em segredo.

O respiro fundo veio pouco antes “dos milico” pisarem a terra vermelha, eles desejando mesmo é que os meninos de sempre não fossem só meninos – que já fossem gente – e que, então, pudessem pisar suas cabeças sem remorso; coturnos tingidos de sangue.

E ela, toda invisível, escondida na sua cova-piada. Uma cova rasa, que nem coisa de morto era. Cantarolou:

Essa cova em que estás, em palmos medida, é a parte que te cabes neste latifúndio…

Mãe, o que é latifúndio?

Então, sonhou de novo, dessa vez um sonho mais comprido, pra que nele pudessem caber outras meninas pretas e pobres com segredos parecidos com os seus.

Naquela noite de Santo, entendeu que toda menina poderia ser o que quisesse. Até mãe – mesmo que preta e pobre.

 

Texto vencedor do Concurso de Crônicas e Contos do Museu do Futebol 2026 (4º ao 20º lugares)