
Por Valdir Soares Fernando
Laura catalogava a fotografia de uma equipe feminina de 1984 pelo formulário habitual do acervo. No verso, estavam registrados o presidente do clube, o treinador e o árbitro. As onze jogadoras cabiam em três palavras: “moças da comunidade”. A súmula confirmava o placar de um a zero; junto à anotação do gol, uma raspagem interrompia o traço da escrita.
Laura conferiu data, campo e numeração, convencida de que preservar significava transcrever somente o que continuava legível. Antes de encerrar a ficha, ampliou a imagem. Na ponta direita, quase vencida pela margem, uma mulher erguia o braço. O dedo avançava para fora do enquadramento, insistindo num destino que a fotografia deixara inteiramente ausente, sem rosto nem nome.
Laura encontrou Celina numa nota esportiva guardada entre recibos do clube: o nome completo vinha seguido do endereço da lavanderia da família. Diante da fotografia, Celina pousou o dedo sobre o braço erguido na margem.
– Sou Ponta direita.
Lembrou a lama prendendo as chuteiras, a trave inclinada e o chute cruzado após o passe de Rosa, que ficara fora do enquadramento. Depois reconheceu Nadir no gol e Cida pela trança curta.
– Nadir ainda fala com metade do time.
Prometeu procurar um caderno de endereços. Do árbitro, recordava apenas o apito rachado; o nome permanecia inteiro na súmula. Laura anotou tudo, sabendo que memória alguma, sozinha, encerraria a partida nem devolveria todos os nomes ausentes.
Nadir encontrou Cida; Cida levou Laura até Rosa; dois bilhetes esquecidos no clube abriram outros caminhos. As jogadoras recompuseram posições, apelidos e uniformes, embora divergissem sobre o minuto do gol e a escrita apagada.
Rosa confirmou o passe para Celina, mas os três riscos de grafite não formavam nome algum. A legenda prevista dizia apenas: “Súmula original da partida”. Celina leu, devolveu o formulário e recusou aparecer sozinha enquanto as companheiras continuassem reduzidas a uma frase.
Laura suspendeu a impressão das placas, atrasando a montagem. Diante das versões incompletas, entendeu que não lhe cabia escolher uma lembrança vencedora. Seu trabalho seria expor documento, vozes e dúvidas sem completar à força o que o arquivo havia deixado em aberto.
Laura preservou a súmula original e dividiu a legenda: o registro do documento, as lembranças das jogadoras e as dúvidas ainda abertas. Sob a fotografia, ficaram nomes e posições confirmados por elas; Rosa, ausente do enquadramento, foi citada como autora do passe. Na abertura, Celina encontrou a identificação sob a mulher do centro. Tirou os óculos.
– Eu jogava na ponta direita.
Com a unha, indicou a figura junto à margem e acompanhou Laura deslocar a etiqueta, sem tocar no documento. Apontou para o espaço além da fotografia.
– Rosa estava ali.
O nome alcançou a extremidade da imagem. Celina manteve o dedo sobre a borda, no ponto de onde lembrava ter partido para receber a bola.
Texto vencedor do Concurso de Crônicas e Contos do Museu do Futebol 2026 (4º ao 20º lugares)


