
Por Gabriel Teles
Durante a infância, acreditava que Dona Cida morava no estádio.
Era a única explicação possível. Eu chegava para os jogos e ela já estava lá. Voltava para casa depois do treino e ela continuava por ali. Quando havia partida à noite, era a última pessoa que eu via antes dos refletores se apagarem. Carregava um molho de chaves preso à cintura, destrancava portões e aparecia sempre que alguma coisa desaparecia.
Bola, boné, chuteira, documento, aliança. Se alguém perdia alguma coisa, a resposta era sempre a mesma:
– Pergunta pra Cida.
Atrás da sala da zeladoria havia um armário de madeira. Ali dentro dormiam chuteiras sem par, fotografias amassadas, ingressos antigos, rádios de pilha, bandeiras esquecidas e uma faixa azul. Nunca jogava nada fora.
– Vai que a pessoa volta.
A maioria não voltava. Mesmo assim, ela guardava. Eu gostava daquele armário. Tinha a impressão de que os objetos continuavam esperando seus donos. A faixa azul estava ali desde que me entendia por gente. Nunca acumulava poeira. Um dia perguntei de quem era.
– De uma menina.
Foi tudo o que respondeu. E não indaguei. As crianças sabem lidar bem com alguns mistérios da vida.
Percebi que quase todas as histórias do estádio passavam por Dona Cida. Ela conhecia cada pedaço daquele lugar, mas nunca falava dela. Sabia quem havia feito o gol decisivo na final de 1988, quem derrubara o alambrado durante uma comemoração ou quem havia pedido a namorada em casamento na arquibancada coberta.
E foi graças a um boné perdido que vi Dona Cida de outro jeito. Certa vez fui ao estádio procurar antes do entardecer. O portão estava aberto. Não havia treino nem jogo. Entrei.
Foi então que ouvi o som de um chute. Vinha do gramado. Aproximei-me devagar e vi Dona Cida. Estava descalça. Uma bola antiga repousava perto da meia-lua. Ela chutava, buscava a bola e chutava de novo. Como quem repetia um gesto conhecido há muito tempo.
Fiquei escondido atrás da arquibancada. Até vê-la acertar o ângulo. E comemorar. Com os braços abertos e um sorriso largo.
Não era o sorriso de quem havia feito um gol. Era o de quem havia reencontrado alguma coisa.
Me distraí e saí sem recuperar o boné. E sem contar a ninguém o que vi. Depois disso, comecei a reparar em certos detalhes. Algumas meninas apareciam para jogar quando o estádio já estava vazio. Dona Cida nunca reclamava quando ficavam além do horário. Apenas acendia mais um refletor. Ou deixava um portão destrancado. Ou fingia não ver.
Com o tempo, o campo passou a ter horários que nunca tivera. Algumas pessoas reclamavam. Dona Cida fingia que não ouvia.
Anos mais tarde, quando ela morreu, esvaziaram sua sala. O armário continuava lá. As chuteiras. Os rádios. As fotografias. A faixa azul. Tudo esperando.
Vai que a pessoa volta. Vai que a menina da faixa azul volta. Vai que o tempo volta.
Hoje existe um time feminino no estádio. Às vezes passo por lá e vejo as jogadoras entrando pelo mesmo portão que Dona Cida abria antes do amanhecer.
Então me lembro daquela tarde. E penso que talvez ela nunca chegasse tão cedo para abrir o estádio, porque, para ela, ele nunca tivesse sido fechado.
Talvez chegasse cedo porque algumas pessoas sempre deixam alguma coisa para trás. Talvez tenha passado a vida inteira deixando caminhos abertos para que elas encontrassem o que haviam perdido.
3º lugar no Concurso de Crônicas e Contos do Museu do Futebol 2026.


