Ilustração com fundo azul mostrando desenhos de jogadoras com os dizeres "Concurso de Crônicas e Contos do Museu do Futebol 2026)

Por Paula Delgado

 

Respiro três vezes. Um. Dois. Três.

Meu coração dispara e, um segundo depois, meu peito explode. Eu estava sentindo o futebol de novo.

Mas nem sempre foi assim.

Em 2017, depois de uma eliminação do Flamengo na Libertadores, acendi minha vela e fiz uma oração desesperada para São Judas Tadeu. Pedi o poder para interferir nos jogos.

Naquela noite, ele apareceu no meu quarto. Com um cajado não mão, perguntou se era realmente aquilo que eu queria. Respondi que sim. Antes de partir, fez apenas uma pergunta:

— E o que mais você vai perder?

Achei graça. Como eu perderia alguma coisa? O Flamengo seria campeão de tudo e eu seria a torcedora mais feliz do mundo. Ele tocou minha cabeça com o cajado e acordei.

Posteriormente, descobri que conseguia mudar o jogo. Um sopro desviava a bola, um tropeço mudava uma jogada, um milésimo de segundo mudava tudo. O Flamengo começou a ganhar. Depois ganhou de novo. E de novo. Vieram títulos, vitórias impossíveis e milagres que só eu entendia. Sabia exatamente o que aconteceria antes de cada partida e achava maravilhoso.

Até deixar de achar.

Com o tempo, percebi que já não gritava gol, não me arrepiava com o hino e nem ficava ansiosa pelas partidas. O futebol tinha perdido a graça. Eu sabia o resultado de tudo. Não existia emoção. Eu tinha realizado o sonho de qualquer torcedora e, sem perceber, destruído a melhor parte dele.

O pior não foi perder o futebol, mas tudo que o envolve. Desde menina, sonhava em trabalhar com aquilo, entrar em campo com um microfone na mão, contar histórias, viver o futebol por dentro. Mas como uma jornalista poderia falar da beleza do jogo sabendo que tudo estava sendo manipulado por ela?

Quando eu não pude assistir, o Flamengo foi eliminado. Foi então que percebi que eu já não acreditava nos jogadores, na raça ou na mística rubro-negra. Não era o Flamengo, era eu e sem mérito nenhum. Aquilo me deixou vazia. Havia parado de assistir aos jogos, me afastei do que amava e senti que estava perdendo uma parte da minha identidade.

Voltei a rezar para São Judas Tadeu, na verdade, eu chorei para ele. Quando ele apareceu novamente, repetiu a mesma pergunta de anos atrás:

— O que você perdeu?

Dessa vez eu sabia responder.

— Tudo.

Não foi só o futebol. Foi a emoção, os momentos com a minha família, os amigos e o sonho daquela menina que queria gostava do futebol na corda bamba que era amar este esporte.

Ele sorriu.

— O impossível não é ganhar. O impossível é viver toda a jornada para chegar até lá e perceber que ela vale a pena.

Depois tocou minha cabeça com o cajado e eu acordei.

Era 2017 outra vez. Desta vez, deixei a bola rolar. Vi vitórias improváveis, derrotas doloridas, ídolos nascerem e partirem. Descobri que a graça do futebol nunca esteve em controlar o resultado, mas em viver a emoção.

Hoje trabalho com jornalismo esportivo e também falo sobre o clube que acelera meu coração. Sou uma mulher vivendo o futebol quase dentro do campo, exatamente como sonhava quando me sentava na arquibancada.

O Flamengo não precisa de mim para ganhar, nunca precisou. E o curso natural da história provou isso.

Chego ao Maracanã, a torcida começa a cantar. Respiro três vezes. Um. Dois. Três.

Meu coração dispara. E, um segundo depois, meu peito explode. Eu estou sentindo — e vivendo — o futebol de novo.

 

Texto vencedor do Concurso de Crônicas e Contos do Museu do Futebol 2026 (4º ao 20º lugares)