Ilustração com fundo azul mostrando desenhos de jogadoras com os dizeres "Concurso de Crônicas e Contos do Museu do Futebol 2026)

Por Catarina Estradas

 

Sob o olhar deslumbrado de uma criança, o acanhado estádio Haroldo da Glória se via colossal. Centenas de pessoas caminhavam apressadas em direção às bilheterias, mas pareciam milhares marchando ao lado de Glorinha.

Seu pai, Valdo, há muito não frequentava os jogos. Com o agravamento da doença, a visão lhe abandonara. Torcedor devoto do Riopequenense, sempre quis semear em Glória a paixão pelo clube, tanto que batizou a pequena em homenagem ao ídolo. Aquele domingo era especial: dia de apresentar o Azulino de Rio Pequeno à filha.

Os cânticos, a euforia e até os palavrões já eram familiares à menina vendo Valdo ao pé do rádio, mas nunca tantos, nunca em coro.

Amparando o pai pelas mãos, subiram a escada que dava acesso às arquibancadas. Uma ruidosa maré de uniformes azul turquesa, iguais ao seu, fluía enquanto a menina conduzia o pai.

Aos oito anos, Glorinha, sentada naquele assento velho, hipnotizada pelo batuque da torcida e pelo tremular das bandeiras, compreendeu como os momentos se eternizam. Fitou seu pai que cantava com um sorriso no rosto e os punhos brandindo ao céu. Seus olhos mortos choravam em regozijo.

– Agora o seis saiu disparado com a bola. Ele jogou na área. O nove vai fazer o gol… Ah, para fora.

A menina, concentrada, sussurrava imagens nas retinas de seu pai. Enxergar pelos olhos de uma filha é como enxergar com o coração. Era isso que Valdo dizia à Glorinha.

– A bola subiu até o céu. O nove deu um pulão muito grande, foi de cabeça… É gol! Gol da gente, pai!

Unidos em um abraço que amalgama o tempo, pai e filha desejaram que aquele momento durasse para sempre.

Filha, você é fera nisso! Deveria narrar jogos no rádio — disse Valdo em um misto de euforia e orgulho.

“Pai, eu vou narrar jogos no rádio.” Glorinha murmurou no ouvido gelado de seu pai antes de fecharem o caixão. A morte de Valdo tirou muito da menina, mas deixou como herança um inquebrantável vínculo com o futebol e o sentimento de que, com a sua voz, poderia tocar as pessoas.

– Qual o sonho de vocês? Questionou a professora enquanto distribuía as fichas de inscrição do Os alunos tinham a resposta na ponta da língua: “advogada”, “empresário”, “escritora”, “narradora de futebol”… Então o silêncio, seguido de uma risada em uníssono. Aviltada, Glorinha não entendia como seu sonho poderia ser motivo de zombaria.

– Vai narrar jogo de boneca? – debochou alguém no fundo da

– Silêncio, turma! – ordenou a professora segurando o riso. – Narradora? Isso existe, Glória?

– Por que não existiria, professora? O futebol acolhe a todos, quem rejeita são as pessoas — disse a jovem ofendida.

Mas a promessa feita ao pai cristalizou-se de tal forma no coração da menina, que se não existia lugar para mulheres nesse esporte, ela haveria de criar o seu.

Agora, da cabine de transmissão, olhando para o mesmo assento velho em que se sentara com seu pai, absorta naquelas recordações, Glória permaneceu imóvel enquanto revisitava aquele domingo. Seu pai parecia habitar cada canto do estádio Haroldo da Glória, e seus gritos ainda ecoavam pelas arquibancadas.

Com a voz embargada, Glória iniciou a narração de mais um jogo. Em algum lugar, ela acreditava, Valdo ainda podia ouvi-la.

 

Texto vencedor do Concurso de Crônicas e Contos do Museu do Futebol 2026 (4º ao 20º lugares)