
Por Diane Pereira Souza
Nunca vi Rumbora correr atrás da bola. Ela dizia que bola não era bicho para fugir. Era bicho para convencer.
Ninguém mais lembrava o nome de batismo. Só Rumbora.
Porque ela empurrava o mundo desse jeito.
— Rumbora.
Rumbora pescar.
Rumbora tomar juçara.
Rumbora antes que a chuva invente desculpa. Minha mãe dizia que ela era respondona.
Meu pai jurava que era doida. Eu acreditava em mim.
Achava que Rumbora entendia a língua das bolas. Ela nunca olhava primeiro para o jogo.
Olhava para as pernas.
— Bola mente.
Perna, não.
Tem perna que já acorda cansada.
Tem perna que dança melhor do que dribla. Tem perna que trabalha desde criança.
Tem perna que ainda não descobriu que nasceu para correr. Depois completava:
— Homem que diz que mulher não joga bola quase nunca olha para a bola. Olha para as pernas.
Foi Rumbora quem me ensinou que toda bola perdida tem vergonha. Ela encontrava uma no mato.
Outra no igarapé.
Outra em cima do telhado da escola.
Voltava carregando todas. Lavava.
Costurava.
Enchia.
Conversava.
Nunca devolvia uma bola ao mundo sem antes passar a mão nela como quem pede licença. Perguntei uma vez por quê.
Ela respondeu:
— Porque ninguém gosta de voltar achando que foi esquecido. Passei anos acreditando que ela falava de couro.
Um domingo apareceram homens medindo o campo.
Traziam capacete branco, trena amarela e uma certeza enorme. Rumbora olhou para eles e perguntou:
— Vocês sabem onde a bola gosta de quicar? Ninguém respondeu.
Quem mede terreno raramente mede silêncio. Ela foi embora.
Achei que tinha desistido.
Voltou empurrando um carrinho de mão.
Dentro havia todas as bolas que resgatara durante a vida. Velhas.
Tortas.
Remendadas.
Uma delas já nem era redonda. Era memória.
Espalhou cada uma pelo campo. Como quem devolve peixes ao rio. O engenheiro perdeu a paciência.
— A senhora está fazendo o quê? Ela pensou um pouco.
— Chamando.
Naquele instante apareceu uma menina. Magra.
Sandálias na mão.
Olhos de quem ainda pedia desculpa para existir. Parou diante das estacas.
Olhou para Rumbora.
Olhou para as bolas.
Olhou para os homens.
Rumbora não disse que mulher podia jogar.
Não disse que lugar de mulher era onde ela quisesse. Não fez discurso.
Pegou a bola mais feia.
A mais remendada.
A que parecia ter vivido muitas vidas. Empurrou devagar.
A bola encontrou uma fresta entre duas estacas. Passou.
A menina matou no peito. Depois no pé.
Depois saiu correndo. Atrás dela foi a bola. Atrás da bola foi o vento.
Os homens continuaram medindo.
Nunca perceberam que, naquele exato instante, o campo tinha mudado de lugar. Hoje, quando encontro uma bola esquecida, ainda olho em volta.
Não para descobrir de quem é.
Para ver se Rumbora está chegando.
Tenho a impressão de que ela vai aparecer rindo, pegar a bola debaixo do braço e dizer, como quem anuncia um destino e não um caminho:
— Rumbora.
E, toda vez que penso nisso, alguma coisa dentro de mim começa a correr antes dos pés.
Texto vencedor do Concurso de Crônicas e Contos do Museu do Futebol 2026 (4º ao 20º lugares)


