
Por Lindjane Pereira
Estava meio murcha, largada entre as tralhas do meu irmão mais novo, adulto, pai de família, frequentador de peladas de fim de semana. Era uma bola de couro antiga.
Eu remexia tudo, botava muito lixo pra fora, ouvindo forró pra criar coragem, sozinha nesta casa grande demais, sem o cheiro de tempero de mainha, sem a cara curtida de sol do meu pai, sem a brigaiada dos meus irmãos.
A bola estava no meio das tralhas de Toinho, apartada dos seus dias de glória e escondida do desejo de uma menina arrevesada.
Peguei a redonda nas mãos e a joguei no chão, pois bola é bicho para andar nos pés. Dei um chute tímido e a vi girando no minúsculo espaço até ser contida pela parede do depósito. Bastou para trazer de volta minha vontade de correr com os meninos no terreiro, gingar com a bola nos pés, driblar aqueles pernas-de-pau metidos. Eu levantaria poeira e, feito uma seta, miraria na rede.
Meus irmãos nem cogitavam a inveja que eu sentia deles. Toinho era diferente. Capturava minha tristeza de bicho enjaulado. Queria me chamar para a brincadeira, mas se deparava com o NÃO desenhado no cenho do nosso pai. Eu ficava quietinha, enquanto meus dedos nervosos tricotavam um paninho de mesa que seria desfiado com o gosto de quem destrói a mulher que não quer ser.
Algumas vezes levávamos a bola escondida para um descampado. Catávamos pedras do riacho para fazer nossas traves e jogávamos de igual para igual, rivais ferrenhos, até o mergulho nas águas refrescantes.
Mas meninos da roça crescem rápido. Um a um os irmãos se foram. Toinho também. Eu fiquei, alguém sempre tem que ficar.
Painho, que tanto se desgostara por ter uma filha solteirona, envelheceu na enxada. Eu ficava nos cuidados com mainha. À noite, porém, uma fagulha do meu desejo se acendia quando o rádio trazia a Copa de 70.
Depois que comprou uma televisão, mandou chamar os filhos para ver a final e fez questão que eu me sentasse ao seu lado.
Em comemoração, uma pelada no terreiro. Me sentei para reparar, linhas e agulhas nas mãos. A redonda era a rainha outra vez. Foi quando Toinho caiu.
— O time vai ficar desfalcado.
Minha boca quase se abriu; meu irmão olhou para painho; painho olhou para mim.
— Vá jogar, Maria.
Texto vencedor do Concurso de Crônicas e Contos do Museu do Futebol 2026 (4º ao 20º lugares)


