Barbosa, 100 anos: novas perspectivas no centenário de um grande goleiro

Moacyr Barbosa e Clotilde Melônio. Foto: Acervo Museu do Futebol | Coleção Moacyr Barbosa | Foto: Direitos Reservados

Até recentemente, ao se pronunciar a palavra “Barbosa” no universo do futebol, a memória recobrada quase única e exclusivamente relacionava o atleta à Copa do Mundo de 1950. Precisamente, à derrota brasileira para os uruguaios no quadrangular final dessa competição esportiva, ocorrida não apenas no Brasil, mas em pleno Estádio do Maracanã, lotado por cerca de 200 mil pessoas. Trata-se de um processo mnemônico não espontâneo, fruto de uma construção social da memória acerca do “16 de julho”, que atribui ainda hoje a Moacyr a alcunha de “goleiro do Maracanazo”. 

A “invenção” dessa história deu-se por determinados agentes, sobretudo dirigentes esportivos, jornalistas e intelectuais, não coincidentemente brancos, cujas falas, crônicas e narrativas transformaram-se em lugares da memória. Nessa representação do passado, Barbosa tornou-se figura central dessa “tragédia” e “trauma” nacionais. Apagou-se tudo o que o goleiro havia feito em sua carreira profissional e vida pessoal para considerá-lo apenas por este prisma, reduzindo sua existência ao “fracasso de 50” e imputando-lhe uma culpa que jamais teve. 

Dentro de um contexto ufanista e interpretativo sobre o Brasil, o resultado não poderia ser outro que não uma leitura racista. Com o passar do tempo, mesmos os livros voltados a tratar de aspectos biográficos de Barbosa acabaram por destacar no título a relação do goleiro com a Copa de 1950, como se pode notar em: Barbosa: um gol faz cinquenta anos, de Roberto Muylaert, e Queimando as traves de 50, de Bruno Freitas. Isso foi reproduzido, inclusive, na sala Rito de Passagem, da exposição de longa duração do Museu do Futebol, quando Barbosa aparecia no momento fatídico do segundo gol uruguaio. Na sequência das imagens, o goleiro era mostrado de joelhos e cabisbaixo. 

A pesquisa da exposição temporária Tempo de Reação — 100 anos do goleiro Barbosa, que ficou em cartaz entre junho de 2021 e janeiro de 2022, teve, pois, a intenção de desconstruir essa memória cristalizada, oferecendo ao público novos ângulos sobre a trajetória de Moacyr, para muito além da referida competição mundial, em conformidade com o antirracismo. Celebrar seu centenário significava restaurar sua carreira vitoriosa e buscar indícios acerca de sua vida pré e pós-atleta profissional de futebol. 

Barbosa com o Tiradentes Atlético Clube. Acervo Museu do Futebol | Coleção Moacyr Barbosa | Foto: Direitos Reservados

Se de um lado, portanto, perseguíamos os rastros do passado a partir de seu nascimento em Campinas-SP; por outro, no caminho inverso, puxávamos o fio dos relatos daqueles que vivenciaram com ele seus últimos momentos. Aonde chegaríamos era uma incógnita, ainda mais diante do curto tempo de investigação e dos desafios impostos pela pandemia da Covid-19, a qual restringiu nossa circulação e fechou instituições em sua fase mais severa. Os caminhos percorridos pela pesquisa possibilitaram algumas descobertas, levantamento de imagens e a construção de uma nova narrativa sobre o homenageado. 

Em Campinas-SP, por exemplo, encontramos alguns registros inéditos acerca do goleiro. Sua certidão de nascimento permitiu-nos atestar seu nome oficial (sem o sobrenome Nascimento reproduzido em tantos textos escritos sobre ele), bem como tomar conhecimento do local em que veio ao mundo, na vila operária da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro, empresa onde seu pai trabalhava. No Colégio Técnico Bento Quirino, consultamos inúmeros livros até nos depararmos com o registro de suas notas no curso de marcenaria, o que nos possibilitou assegurar que ele interrompeu a formação na metade de 1936, ou seja, poucos meses após o falecimento de seu pai. Este fato o fez sair da casa de sua mãe e ir morar com a irmã mais velha em São Paulo-SP. 

Documento de Identidade do goleiro Moacyr Barbosa. Acervo Museu do Futebol | Coleção Moacyr Barbosa | Foto: Direitos Reservados

Na capital paulista, por sua vez, conseguimos localizar a residência em que Barbosa morou e a rua onde jogou peladas na juventude no bairro da Liberdade. Tomamos conhecimento e encontramos registros da história do Laboratório Paulista de Biologia, lugar em que ele trabalhou e por cujo time (LPB) disputou campeonatos amadores na virada dos anos 1930 para 1940. E realizamos não apenas uma visita ao Clube Atlético Ypiranga, mas documentamos uma entrevista com o ex-presidente Roberto Nappi, que o ajudou e o homenageou ainda em vida. No acervo do CAY, vimos emoldurado o primeiro contrato assinado pelo goleiro como jogador profissional, datado de 16 de abril de 1942. 

Casa em que Barbosa morou no bairro da Liberdade, em São Paulo, na passagem da década de 1930 para a de 1940 | Foto: Marcel Tonini
Sr. Roberto Nappi mostra placa em homenagem a ex-atletas do CA Ypiranga, entre eles Barbosa, em 26 de maio de 2021 | Foto: Marcel Tonini

Foi em Praia Grande-SP, contudo, onde tivemos as maiores surpresas e descobertas. Lá nos encontramos e entrevistamos Tereza Borba, filha adotiva de Barbosa, que conviveu com ele em seus últimos anos de vida. Em sua casa, ela mantém o acervo particular do goleiro, incluindo entre outros: documentos pessoais; mais de duas centenas de fotografias, com destaque para antigas e de sua vida privada; presentes e placas em sua homenagem; réplicas tanto da medalha quanto de sua camisa na conquista vascaína do Campeonato Sul-Americano de Clubes de 1948; uma estátua quase em tamanho real feita de metal; e um pedaço serrado de madeira vindo de Muzambinho-MG, possivelmente de uma das traves do Estádio Maracanã na Copa do Mundo de 1950. Este objeto, em particular, ficou em uma vitrine destacada ao longo da exposição. Cabe não apenas fazer um agradecimento especial, mas reconhecer a atenção, o carinho e o cuidado despendidos por Tereza. Ela ocupa um papel central na reconstrução da memória sobre Barbosa. 

Tereza Borba e Moacyr Barbosa em almoço em seu apartamento, fim da década de 1990, Praia Grande-SP. Acervo Museu do Futebol | Coleção Moacyr Barbosa | Foto: Direitos Reservados

Ao longo da pesquisa, mais de 50 pessoas de muitas instituições foram contatadas e auxiliaram no levantamento de fontes e informações sobre o goleiro. Soma-se a isso jornais, revistas e fotografias angariados em muitos arquivos e bibliotecas, públicos e privados, com destaque para: Arquivo Público do Estado de São Paulo, Arquivo Nacional, Biblioteca Nacional e Centro de Memória do C. R. Vasco da Gama. Os documentos, em geral, possibilitaram conhecer camadas da vida pública e privada de Moacyr Barbosa desconhecidas pela maioria das pessoas. Chamamos atenção para suas qualidades técnicas enquanto goleiro que o alçaram à seleção brasileira, seu orgulho por ser vice-campeão mundial, seu caráter e perseverança diante do que sofreu após 1950, sua humildade e contribuição na formação de vários arqueiros por onde passou, as amizades tecidas e o modo carinhoso pelo qual era tratado, e sua alegria e gratidão pela carreira e pela vida. 

Isso tudo contrapõe frontalmente tanto àquela memória quanto à imagem que se tem de Barbosa. Ele revela-nos o quão racistas ainda somos. Devemos a ele e a todos os negros e negras deste Brasil outras possibilidades, outras narrativas, outras imagens, sob perspectivas antirracistas. Precisamos compreender não apenas a relação entre memória e história, mas também entre os tempos históricos, assim como nosso papel enquanto mediadores das temporalidades. Foi nessa direção que o Museu do Futebol revisou a sala Rito de Passagem, retirando a imagem do centenário goleiro e apresentando a seguinte mensagem: “A derrota do Brasil foi injustamente atribuída a Juvenal, Bigode e ao goleiro Barbosa — os três jogadores negros da Seleção de 1950. Perder faz parte do jogo. Racismo, não.” 

Os acervos coletados nesse processo de pesquisa encontram-se hoje à disposição para consulta no Centro de Referência do Futebol Brasileiro. 

Moacyr Barbosa, Clotilde Melonio e familiares em pose com o morro do Pão de Açúcar ao fundo, Rio de Janeiro-RJ, década de 1940. Acervo Museu do Futebol | Coleção Moacyr Barbosa | Foto: Direitos Reservados
Carteirinha de Barbosa do Ypiranga. Acervo Museu do Futebol | Coleção Moacyr Barbosa | Foto: Direitos Reservados

Referências

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Marcel Diego Tonini

Pesquisador sênior do Centro de Referência do Futebol Brasileiro. Pesquisador da exposição temporária Tempo de Reação — 100 anos do goleiro Barbosa.

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